Direito Autoral

Desrespeitar os direitos autorais é crime previsto na Lei 9610/98.

07 março 2010

Sobre o “deserto dos pássaros úmidos”

Imagem: JGNeres

Geraldo Neres é um nome que eu conheço há algum tempo, mais precisamente em 2003, desde a época de Palavreiros; um movimento que surgiu em São Paulo e que reuniu muitos e muitos simpatizantes da literatura. Desde então, tem sido para mim um prazer acompanhar a sua trajetória no mundo da palavra; a sua aventura demasiado humana que nos revela os silêncios que quase desconhecemos, mas que habitam em cada um de nós. Neres é detentor de muitos prêmios, entre eles: o Prêmio Cultural Plínio Marcos – Mostra de Arte de Diadema, em 2004. Autor de “Pássaros de papel” e de outros livros em que a poesia confirma o seu estar no mundo.

Quero falar de Outros silêncios – um livro publicado em 2008, junto ao Ministério da Cultura e do Programa de Ação Cultural (PROAC), da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. A capa é de Floriano Martins e nos sugere, na primeira leitura, que devemos estar atentos, sempre, ao verbo que se faz silêncio e da sua ebulição em nós. Sim, o verbo se faz silêncio e dentro dele podemos intuir tudo, até o canto seco de uma multidão de pássaros úmidos; podemos intuir tudo: a vertigem, as desigualdades sociais, a explosão do silêncio que se renova no exercício de ser um eterno insatisfeito que é o ser poeta.

Em Outros silêncios, outras vozes se encontram e sugerem que é tempo ainda de não desperdiçar o jeito de ser do outro; o silêncio nos alerta da necessidade de andar de mãos dadas e nos convida a olhar o outro e seus desertos. Em Neres, o silêncio emerge e se apresenta na vida nua e crua que se vive, no tempo que navega além do rio; na memória das águas que expõe nossos fantasmas na figura do “homem oco e seus relógios”; na dor de pássaros afogados no portal do tempo, como sugere o “cortejo de punhais / sol afogado no peso e na dor dos pássaros [...] no sangue do rio” e/ou das asas que também criam raízes no aprendizado das horas.

Ler Geraldo Neres é também uma maneira de intuir o ritmo do silêncio das noites chuvosas; uma leitura que nos convida a fazer parte da metamorfose como quer o “movimento enroscado no deserto dos pássaros úmidos”. Nesse ritmo, a leitura nos convida a não temer a nudez que se desenha do silêncio, da palavra; um convite aos homens e às mulheres do mundo, a todas as pessoas que ainda arrecadam um pouco do tempo para perceber o sentido da palavra aquática como quer o dilúvio dos olhos neste sagrado encontro com a literatura.

Graça Graúna
Nordeste do Brasil, 7 de março de 2010

Nota: texto disponível no Overmundo

20 fevereiro 2010

Manifesto I

Imagem: Socioambiental

...fragmento que sou
da fúria no choque cultural,
aqui, manifesto o meu receio
de não conhecer mais de perto
o que ainda resta
do cheiro da mata
da água
do fogo
da terra e do ar
Torno a dizer:
manifesto o meu receio
de não conhecer mais de perto
o cheiro da minha aldeia
onde ainda cunhantã
aprendi a ler a terra
sangrando por dentro


Graça Graúna
Nordeste do Brasil, 20 de fevereiro de 2010
***
Nota: publicado no Overmundo.

04 fevereiro 2010

"Quem tem medo dos direitos humanos?"

No dia 06 de fevereiro será gravado o Colóquio: “Quem tem medo dos direitos humanos?”, no campus da Unesp de Bauru, com objetivo de debater o Programa Nacional de Direitos Humanos 3, lançado pelo Governo Federal, em 21 de dezembro último e que vem suscitando discordantes posições amplamente divulgadas na imprensa.

Para comentar pontos polêmicos do PNDH-3 como: “Criação da Comissão Verdade, Memória e Justiça”; “Controle social dos meios de comunicação”; “Movimento sociais no campo e Reforma Agrária”; “Descriminalização do aborto e união civil homoafetiva” e outros assuntos, formam convidados: Gilberto Truijo - advogado e presidente de Comissão de Direitos Humanos da OAB-Bauru; Clodoaldo Meneguello Cardoso - professor de Filosofia e Ética em Comunicação da Unesp-Bauru e coordenador do Observatório de Educação em Direitos Humanos da Unesp; Jorge Soriano Moura - advogado e coordenador do movimento social Acesso Popular; Sandra Elena Spósito - psicóloga, professora, coordenadora do CRP - Centro Regional de Psicologia de Bauru e coordenadora da Comissão de Direitos Humanos do CRP de São Paulo.

Os convidados serão entrevistados pelos radialistas e jornalistas:
Cleide Portes (Rádio Unesp FM); Franco Jr ( Rádio FM 96) Alexandre
Pitoli (Rádio FM 94); Reginaldo Vianna (Rádio Véritas); Ricardo
Polettini (TV Universitária da Unesp); João Jabbour (Jornal da Cidade);
Gilmar Dias (Jornal Bom Dia).

O Colóquio “Quem tem medo dos Direitos Humanos” não poderá ser assistido ao vivo, porém o material – gravado em áudio e vídeo - do evento estará disponível a toda mídia de Bauru e região bem como na internet, no site: http//www.oedh.unesp.br. Para maiores informação e para acesso as gravações entrar em contato pelo e-mail: oedh@unesp.br ou pelo tel. (14) 9761 4100.

O colóquio é uma realização do Observatório de Educação em Direitos Humanos da Unesp, da Rádio Unesp FM e da TVU Unesp.

Universidade Estadual Paulista - UNESP/Bauru
Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação - FAAC
--
Associação Nacional de Direitos Humanos - Pesquisa e Pós-Graduação
Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, Travessa 4, Bloco 2,
Cidade Universitária São Paulo/SP
CEP: 05508-900
Tel.: (11) 3091-4980/3091-4951

03 fevereiro 2010

Encontro indígena da América do Sul


Indígenas da América do Sul estarão reunidos de 2 a 5 de fevereiro, no Paraná
A aldeia indígena Tekoha Añetete, localizada no município de Diamante D’Oeste, no Paraná, sediará de 2 a 5 de fevereiro, o Encontro dos Povos Guarani da América do Sul (Aty Guasu Ñande Reko Resakã Yvy Rupa), que está sendo realizado pelo Ministério da Cultura por meio da Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural.

O objetivo da iniciativa, cuja programação foi elaborada pelos próprios indígenas, é apresentar a força das comunidades, difundir suas culturas tradicionais e contribuir para um visão mais ampla da temática indígena no Brasil e na América do Sul, além de fortalecer a identidade. Para o antropólogo Rubem Almeida, coordenador técnico do evento, será uma oportunidade importante para os guarani se relacionarem e discutirem questões básicas da etnia.

O primeiro dia do encontro será destinado à chegada e acomodação dos cerca de 800 índios guarani da Bolívia, Paraguai, Argentina e do Brasil - Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro. Nos dias 3 e 4, haverá apenas a participação dos indígenas, que discutirão as propostas a serem apresentadas às autoridades. Já o encerramento contará com as presenças dos ministros da Cultura do Brasil e do Paraguai, Juca Ferreira e Tício Escobar, respectivamente.

A realização do Encontro dos Povos Guarani da América do Sul tem a parceria da Itaipu Binacional, da Fundação Nacional do Índio (Funai), da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), das Secretarias de Educação e de Cultura do Paraná, e das Prefeituras Municipais de Diamante D’Oeste e de Foz do Iguaçu. O Instituto Empreender é responsável pela produção executiva do evento, que tem o apoio do Mercosul Cultural.

A programação completa, notícias em tempo real e outras informações podem ser conferidas na página eletrônica blogs.cultura.gov.br/encontroguarani.

Registro Audiovisual - Duas equipes de filmagens formadas por indígenas do Brasil - Guarani-Mbya, do Rio Grande do Sul, e Kaiowá, do Mato Grosso do Sul - registrarão o evento. As imagens produzidas resultarão em dois documentários que serão disponibilizados no Blog do Encontro. A TV Cultura também produzirá um documentário sobre a iniciativa.

(Heli Espíndola, Comunicação SID/MinC)


Comunicação SID/MinC
Telefone: (61) 2024-2379
E-mail: identidadecultural@cultura.gov.br


Acesse: http://www.blogger.com/www.cultura.gov.br/sid
Nosso Blog:
blogs.cultura.gov.br/diversidade_cultural
Nosso Twitter:
twitter.com/diversidademinc
***
Nota: publicado no Overmundo

26 janeiro 2010

Quase um alento


Sonho, acordo e enloucresço.
Penso: a vida seria desolada
se não houvesse canções de amor.

Não digo, só penso:
você é quase o meu alento
ou quase tudo que eu quero.
Vamos deixar o nosso nome na porta
viver o momento
e seguir a canção.

***

Graça Graúna
Nordeste do Brasil, 21.jan.2010

***
Nota: ler ao som de "Mora na filosofia", música interpretada por Caetano.

25 janeiro 2010

Haiti : ajuda humanitária

UNICEF no Brasil recebe doações para as vítimas do terremoto no Haiti

Uma vez que quase a metade da população do Haiti tem menos de 18 anos, o UNICEF possui um papel especialmente decisivo e espera conseguir pelo menos 120 milhões de dólares, em todo o mundo, para sua ação de ajuda humanitária às vítimas do terremoto do último dia 12 de janeiro. Em um primeiro momento, os esforços do UNICEF para ajudar a salvar vidas e contribuir para a recuperação do Haiti estarão focados no abastecimento de água potável e saneamento, na alimentação terapêutica para bebês e crianças pequenas, no fornecimento de medicamentos e abrigos temporários.
O UNICEF no Brasil está recebendo doações para as vítimas do terremoto no Haiti. As doações podem ser feitas em favor do Fundo das Nações Unidas para a Infância, no Banco do Brasil; agência 3382-0; conta-corrente nº 404700-1. O CNPJ do UNICEF é 03744126/0001-69.
Essa arrecadação do UNICEF no Brasil está sendo feita em articulação com as outras agências do Sistema ONU e tem como foco prestar socorro às crianças e aos adolescentes vítimas do terremoto.
O UNICEF no Brasil também está recebendo doações para o Haiti por meio de seu site seguro: doe agora! Mais informações sobre as doações podem ser obtidas pelo telefone 0800 601 8407.
***

19 janeiro 2010

Miragens

Imagem: Pierre Bonnard


À meia luz
escudados nos sonhos
despistaram o medo de amar
e só diante do espelho admitiram
que a nudez é um perigo
capaz de intimidar o Amor
...depois do amor a espera
sem pressa, sem dor
depois do amor
o desejo natural
de repousar entre lençóis
e continuar a loucura
que não se vê em jornais.
Escudados nos sonhos
beberam a angústia do ser
na boca molhada de suor e sexo
seguindo o infinito
neste sopro de adeus...


Graça Graúna
Sobrevoando o cerrado/DF, em 12.jan.2010

Nota: poema publicado no Overmundo

08 janeiro 2010

Postal

Rio Capibaribe(Recife), por Marcio Cabral de Moura - Flickr


À flor da água:
Recife
Pasargada
penhasco
feérica espera
vereda-mar

Ai, Recife!
Quem-me-quer à flor da pele?
Quem há de enxugar meus prantos?


Graça Graúna. Postal. In: Canto Mestizo, Maricá/RJ, 1999, p. 59
Nota: poema publicado no Overmundo.

31 dezembro 2009

Estrela-guia

 
Imagem Google


Que todos os cantos sejam
de Amor e Paz
e a estrela guie
o nosso tempo de estar no mundo



Graça Graúna
Nordeste do Brasil, 31.dez.2009
Poema publicado no Overmundo.

19 dezembro 2009

...sobre um “canto peregrino e mestizo”

Ilustração: indios kadiweu
Capa: Agnes Pires

Nada de novo e tudo de novo. No baú de lembranças, reencontro as boas palavras escritas em 2001 por um amigo, acerca de "Canto Mestizo" - meu primeiro livro de poemas. Trata-se das impressões do professor e amigo Antonio Viana que, agora, compartilha o andar de cima com Manuel Bandeira e Irene preta, com Drummond e Cecília Meireles e outros que se foram; mas que deixaram o brilho de sua simplicidade, sensibilidade e sabedoria.
Confesso que senti uma grande vontade de comemorar os 10 anos de “Canto mestizo”, isto é, meu filho de papel e tinta publicado em 1999, pela Editora Blocos, com o prefácio de Leila Miccolis, poetamiga. Pensei em reunir os amigos, ouvir musica, falar de literatura.... enfim, reconhecer que estamos sobrevivendo e que há dez anos me vesti de coragem para mostrar timidamente meu canto atravessado de blues e sol. Pensei em fazer tanta coisa, mas não deu. Contudo, só o fato de estar aqui para compartilhar o desejo de rever os amigos e falar de poesia já é uma conquista, porque a poesia é parte de tudo aquilo que me move. A poesia é possível, não acaba nunca. Enquanto houver poesia, há vida; há esperança. Basta não desistir.
Assim, sem mais delongas, tomo a liberdade de convidar a todos(as) para celebrar a palavra à luz do pensamento vivo de Antonio Viana.


Graça Graúna, Nordeste do Brasil, 18 de dezembro de 2009


Impressões sobre um “canto peregrino e mestizo”

Tentarei expressar nestas palavras minha surpresa e meu encanto ao descobrir a poesia de Graça Graúna no seu Canto Mestizo, apresentado em duas partes: na primeira vemos a autora mostrando-se como um haijin (poeta de haicai), unindo simplicidade, sensibilidade e sabedoria, em poemetos concisos, em três versos, como o faziam os antigos haicaístas. Fiel à estética e aos princípios desta forma poética, a autora cristaliza a instantaneidade do momento, a transitoriedade do sentimento, assim como a fugacidade do tempo através de imagens do dia, palavras, cores e sons do cotidiano, da maneira mais simples possível, como deve realmente ser um belo e autentico haicai. Aqui captamos toda a emoção, a sensação e o sentimento da poetisa apresentados como uma espécie de convite a um diálogo e encontro maior com a sua poesia.
Na segunda parte do livro, Graça, não como uma cotovia, mas como a própria Graúna, nos leva em suas asas, a revisitar espaços poéticos: Recife, Pasárgada, Lisboa, entre outros, na companhia de escritores e artistas de todos os tempos. O “Inventário amoroso” que inicia esta parte, abre-nos as portas ao universo poético-intertextual; partindo de Cervantes passamos por Hesse, Rilke, Neruda, Eliot, Borges, Bandeira, Ascenso, Pessoa, Régio, Mário, Quintana e outros mais.
Uma discreta e sentida homenagem é feita a autores-cantores que com o seu canto e a força de suas mensagens marcaram com uma gota de desespero toda uma geração: Janis Joplin, Victor Jara, Violeta Parra.
A temática do Canto Mestizo desdobra-se em várias direções; o descobrimento dos “brasis” e o destino incerto do nosso povo: o índio, o negro e o próprio mestiço, no dizer da autora “crias de um homem submerso”. Podemos ainda descobrir os mares literários por onde navega Graça Graúna, através das evocações, alusões e citações dos seus mitos poéticos e por fim penetramos num mundo pessoal, povoado de mágoas, desencontros, “esperanças pardas”, incerteza, ânsias, mas também de “riquezas infinitas”; mundo este que nos faz lembrar a poética ferida de Florbela Espanca.
O azul que colore os poemas de Graça assemelha-se ao azul que corre dos dedos de Cecília e “colore as areias desertas”, ao “azul ausente” de Carlos Pena Filho, tentando aprisionar na cor as coisas que lhe são gratas. Graúna pousa sua tristeza no azul quase preto, cor da ausência das cores, ausência de tudo. E parafraseando a autora no poema “Gênesis”, aqui termino afirmando:
Faça-se eco este “canto mestizo”!

Antonio Viana, Recife, 2001.


Nota: texto publicado no Overmundo

14 dezembro 2009

Folia de reis

Imagem: Flickr

Os reis mag(r)os lentamente
caminham pelo sertão
anunciam que a vida
é de curta duração
enquanto o sol arrebentar
em pedacinhos o chão

Léguas e luas de sede
ovos de camaleão
mas nem tudo está perdido:
na direção da estrela
a flor do mandacaru
dá esperança ao sertão


Graça Graúna
Nordeste do Brasil,
poema publicado originalmente em cartão postal, em dezembro de 1981.
Nota: poema publicado no Overmundo

08 dezembro 2009

...mais uma chance à paz...


O silêncio nos acompanha
resmunga
diz que envelheceu
e que só alguns loucos tentam escutá-lo.

O silêncio reclama
diz que são raros
os que ousam tocá-lo
e continuam se perguntando:
- todos dormem ou fingem que estão mortos?

Imagine
o silêncio de fel sobre o gelo fino


Graça Graúna
...pensando em John Lennon...
Nordeste do Brasil, 8 de dezembro de 2009
Nota: poema publicadono Overmundo

02 dezembro 2009

Nas asas da Graúna

Ilustração: José Carlos Lollo


Uma história que conta o passado, o presente e o futuro das gentes.

Uma historia que nos mostra o principio, o meio e o fim.

Nos traz a essência do que somos e o cuidado que temos que ter ao afundar nossos pés no solo sagrado que nos acolhe.

É preciso pisar macio para não desonrar o sagrado que há em cada um, trazido de onde mora a nossa ancestral memória.

Ser fiel exige coragem, desprendimento e afeto.

Ser fiel nos permite estar atentos somente àquilo que é legítimo e verdadeiro para não cairmos nas armadilhas e nos desviarmos do caminho. É saber silenciar o coração, a mente e viver com alegria o presente que mora em nós.

É isso que Graúna nos faz: ela nos coloca em suas asas e nos lembra que somos fios na grande teia da vida.

(Apresentação: Daniel Munduruku)

Ficha técnica


Editora Manole – São Paulo
ISBN - 9788520430576
Encadernação - brochura
Formato - 23 x 23
Ano – 2009
R$ 20,70

Nota: texto publicado no Overmundo