Entrevistas

 Da esquerda pra direita: Cristino Wapichana ao vilão, eu e uma parente indigena Taukane, durante um sarau na Feira do Livro Indígena em Mato Grosso - 2009.



CONGREGAÇÃO DE SANTA DOROTÉIA DO BRASIL
FACULDADE FRASSINETTI DO RECIFE – FAFIRE
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU
ESPECIALIZAÇÃO EM LITERATURA BRASILEIRA

ENTREVISTA COM AUTORES

DADOS PESSOAIS
NOME: Graça Graúna
OCUPAÇÃO: escritora
PSEUDÔNIMO: Graça Graúna
ENDEREÇO DO SITE: www.ggrauna.blogspot.com
EMAIL: grauna3@gmail.com


CONGREGAÇÃO DE SANTA DOROTÉIA DO BRASIL
FACULDADE FRASSINETTI DO RECIFE – FAFIRE

ENTREVISTA concedida a Marlene Reis – aluna do PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU ESPECIALIZAÇÃO EM LITERATURA BRASILEIRA

Eu e Cida Pedrosa

PERGUNTAS
1) Como surgiu a ideia de criar seu site?
Ao criar meu blog e dar meu nome (Graça Graúna), o fiz com o propósito de interagir com leitores e com um grupo de amigos(as) escritores(as).
2) Quais são os objetivos do site?
Tanto quanto o livro, o jornal; um bolg pode ser um lugar para celebrar o hábito de leitura, gosto pelo fazer literário e as boas amizades.
3) Ele tem funcionado do jeito que você idealizou?
No meu blog, à medida que vou postando meus poemas e outros escritos, sempre acompanhados de imagens; vou acrescentando novidades e elementos que considero necessários à  dinâmica da página. No inicio, pensei que haveria pouquíssimos acessos. Hoje, meu blog conta com milhares de acesso; a última contagem ultrapassa a casa de 21 mil leituras ou acessos. Isto é muito gratificante e aumenta a minha responsabilidade como escritora indígena, mulher, educadora, cidadã... 
4) Na sua opinião, o que é que a literatura ganha com a internet?
Com a Internet, a Literatura ganhou mundos possíveis. O livro de papel e tinta nunca vai sair da validade. Entretanto, com a Internet sinto que pode ser ampliado o  contato com os leitores.
5) E o que é que ela perde?
O plágio, por exemplo, é um risco pelo qual passa a literatura. Vez por outra, tenho notícias de trabalhos que são – na verdade – cópias de outros trabalhos. Precisamos estar atentos ao problema da falsidade ideologia, dentro e fora da Internet.
6) Quais são os principais endereços literários da internet em termos de produção pernambucana?
Nas paragens virtuais, o projeto literário mais citado remete ao Biopoética pernambucana, que inclui poetas nascidos em Pernambuco ou que nele mantêm (ou mantiveram) militância literária. Esse movimento está atrelado ao site INTERPOÈTICA.
7) Qual a amplitude e o alcance da divulgação da literatura recifense tem tido na internet?
Reitero as considerações em torno do projeto Biopoética Pernambucana, movimento do qual participo a convite da idealizadora do mesmo - a grande poeta Cida Pedrosa.
8) Como os autores recifenses (você) interagem com seus leitores através da internet?
Não sou recifense. Sou indígena do povo Potiguara (RN). A respeito da interação, procuro sempre que possível estar antenada aos comentários que os(as) leitores(as) deixam sempre no meu blog. Respondo as cartas e e-mails. Acontece também de encontrar leitores(as) em Feiras de Livros e quando isso acontece, parece até um encontro de velhos amigos. Tive essa experiência no VI Encontro de Escritores Indígenas, em junho de 2009, no Rio de Janeiro.
9) Existem ambientes de estudo literários recifenses na internet?
Penso que o site Interpoética favorece essa possibilidade de estudo e alguns blogs que primam pelo literário.

OUTROS COMENTÁRIOS (se necessário)
 
Muito obrigada pela sua colaboração.
Marlene Reis.









  Entrevista em 19 de abril de 2011

O Indío e a cultura indígena na Literatura de Graça Graúna

O índio na literatura. Para quem fez algum curso, ou mesmo para quem já estudou isso nas aulas sobre o modernismo e/ou o romantismo, pode-se dizer que, não era difícil descobrir em algumas obras, que o indío assumia papeis e funções diferentes.
Tomando como base os movimentos supracitados, pode-se dizer que em alguns momentos o índio passou de herói para vítima, de corajoso e valente, para preguiçoso e covarde, mas, poucas vezes se viu uma análise tão realista e tão bem centrada na retratação da cultura indígena como a da escritora cujo próprio codinome literário denomina a cultura que ela tanto valoriza “Graça graúna”.
Ou melhor dizendo, a escritora Maria das Graças Ferreira. Escritora, potiguar de São José do Campestre (RN). Verbete na Enciclopédia de Literatura Brasileira (org. Afranio Coutinho), São Paulo: Global, 2001 e no Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras – 1711-2001 (org. Nelly Novaes Coelho), São Paulo: Escrituras, 2002,  além de extremamente comprometida na divulgação dos estudos sobre os índios e formada em letras pela UFPE.
Em entrevista a revista Impressões, sempre muita educada e simpática, ela nos fala de sua carreira como escritora, do interesse pela cultura indígena, sobre suas obras e de como funciona essa análise da literatura voltada para um viés mais cultural. Com vocês, toda a beleza poético-intelectual da Graça Graúna:
1.   Como se deu o seu interesse em estudar os índios e a sua participação nos movimentos de valorização da cultura indígena?
(Graça graúna) - As questões indígenas são do meu interesse, desde que me entendo de gente; desde criança sempre fui inquieta para entender melhor as minhas origens. Sou da etnia Potiguara, lá, do Rio Grande do Norte. Cabe salientar que o povo Potiguara, em maior número, está localizado na Paraíba; há também um considerável número de parentes habitando em outras regiões do Brasil. Um bom exemplo remete à escritora Eliane Potiguara que saiu da Paraíba com a família para o Rio de Janeiro.
2.   Como é sabido, cara Graça, você se especializou em literatura estudando-a de uma forma mais voltada para os direitos humanos, como se deu essa ideia?
(Graça graúna) - Trabalhar com literatura não é uma tarefa fácil, mas confesso que é uma experiência prazerosa. Ao longo da minha vida, a literatura sempre esteve em primeiro lugar. Nesse ritmo, também me aventurei no mundo da escrita; especificamente no trato com a poesia. A minha experiência no campo das letras está alicerçada na oralidade e foi ouvindo histórias, desde pequena, que aprendi a recontar um pouco do que aprendi/aprendo a com os ancestrais. Cada vez que escuto as histórias ou leio as boas palavras dos parentes escritores indígenas, dou graças a Ñanderu (Deus, em guarani) pela riqueza da nossa cultura. Nesse ritmo, procuro atrelar as questões literárias aos direitos humanos convidando todos(as) a repensar o direito à nossa literatura indígena.
3.   Sabe-se que hoje em dia, as correntes de análise da literatura, estão mais voltadas para o social, um exemplo disso são os estudos de gênero, etnia, identidade na pós-modernidade, etc. Até que ponto isso te influenciou?
(Graça graúna) - Literatura, sociedade, fronteira, identidade, colonização, autonomia… são alguns dos aspectos que procuro ressaltar no meu fazer literário, nos meus estudos. Aprendo bastante com as leituras que faço em Antonio Candido, Alfredo Bosi, Zilá Bernd, Vera Candau, Paulo Freire – isto só para citar alguns brasileiros. Gostaria também de mencionar Walter Benjamin, Angel Rama, Eduardo Galeano e muitos outros pensadores que contribuem para o nosso estar no mundo pautado nos direitos humanos.
4.   Se fosses para escolher uma obra dentre as que publicou, Canto Mestizo (1999); Tessituras da Terra (2001) e Tear da Palavra (2007), qual seria a que mais te marcou?
(Graça graúna) - Em 2010, a Editora Manole publicou minha primeira narrativa para o publico infanto-juvenil; trata-se de Criaturas de Ñanderu. Cada livro/filho que escrevi tem uma peculiaridade, pois resultam de momentos marcantes em minha vida. Os livros que escrevi tratam do meu ser indígena, do meu amor à Mãe Terra, da minha busca de liberdade, da minha preocupação com o social. São filhos de papel e tinta. Então, já pensou se eu fosse dizer de que filho gosto mais?
5.    Para Terminar, Graça, gostaria te perguntar quais as novidades para o ano de 2011, alguma obra em mente? Alguma produção sobre a qual possa nos adiantar alguma coisa?
(Graça graúna) - Por enquanto, posso adiantar que estou escrevendo um livro acerca da Lei 11645/08 – um estudo que estou desenvolvendo no meu Pós-Doutorado em Literatura, Educação e Direitos indígenas.  O outro livro é de poemas e já posso dizer parte do título: “Oratório poético”; espero lançar este livro em setembro de 2011
Entrevista e Texto: Ramon Diego
5 Comentários
  • Primeiramente quero parabenizar a vocês queridos amigos por essa belíssima matéria. E sempre bom relembrarmos , de certa forma, nossas origens…
    vlu meninos…
Comentário de Cleane — 20 de abril de 2011 @ 13:27
  • Cleane, já virou leitora incorrigível da revista, bom ver isso! Valeu!
Comentário de ramon diego — 20 de abril de 2011 @ 13:56
  • Graça, ramon, parabéns pela entrevista e o recorte abaixo me faz pensar nas palavras lidas, o que diz graça é um exercício de cidadania:
    “A minha experiência no campo das letras está alicerçada na oralidade e foi ouvindo histórias, desde pequena, que aprendi a recontar um pouco do que aprendi/aprendo a com os ancestrais. Cada vez que escuto as histórias ou leio as boas palavras dos parentes escritores indígenas, dou graças a Ñanderu (Deus, em guarani) pela riqueza da nossa cultura. Nesse ritmo, procuro atrelar as questões literárias aos direitos humanos convidando todos(as) a repensar o direito à nossa literatura indígena.”
Beijos, bom dia e saber deste trabalho nos traz esperança.
Carmen.
Comentário de carmen silvia presotto — 20 de abril de 2011 @ 15:51

  • Parabéns ao trabalho dos diretores de impressões. cada dia mais as re´portagens se tornam mais úteis e ricas em informação. um trabalho, sem dúvida, de peso e valor literário inconfundíveis.
Comentário de Regina Vieira — 20 de abril de 2011 @ 17:34

  • Muito obrigado a todos, quero que saibam que cada dia temos mais trabalhos a fazer mas, por outro lado, estamos cada vez mais felizes em termos leitores e leitoras como Cleane, Carmem sílvia presotto e Regina Vieira, entre outras pessoas que nos enchem os olhos e ouvidos com seus elogios, valeu mesmo, vamos que vamos!
Abraços a todos!
continuem lendo!
Comentário de ramon diego — 23 de abril de 2011 @ 18:03


Entrevista em 14 de julho de 2010

Entrevista concedida à Lilian Castelo Branco de Lima, maranhense e pesquisadora do mestrado em Letras da Universidade Federal do Piauí.


Estimada Lilian: a respeito da sua pesquisa, especificamente sobre "Literatura Indígena: teias de conhecimentos – tradição em prosa e verso"; seguem as minhas respostas para suas perguntas. Em princípio, quero dizer que não existem aqui respostas prontas, fechadas. Portanto, fique à vontade para tirar as dúvidas que surgirem. Como te falei anteriormente, as minhas respostas vão ao encontro do que escrevi na minha tese “Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil”. Paz em Ñanderu, Graça Graúna

1) Lilian Castelo Branco: Como podemos definir literatura indígena?
Graça Graúna: A literatura indígena contemporânea é um lugar utópico (de sobrevivência), uma variante do épico tecido pela oralidade; um lugar de confluência de vozes silenciadas e exiladas (escritas) ao longo dos 500 anos de colonização. Enraizada nas origens, a literatura indígena contemporânea vem se preservando na autohistória de seus autores e autoras e na recepção de um público-leitor diferenciado, isto é, uma minoria que semeia outras leituras possíveis no universo de poemas e prosas autóctones. (cf. p. 12 da minha Tese)

2) LCB - Quais suas principais características?
GG - ...apesar da intromissão dos valores dominantes, o jeito de ser e de viver dos povos indígenas vence o tempo: a tradição literária (oral, escrita, individual, coletiva, híbrida, plural) é uma prova dessa resistência. (...) Essa tradição é abordada a partir de um conjunto de textos literários contemporâneos de autoria indígena (individual); são livros geralmente escritos em língua portuguesa, mas existem também os livros bilingues em que os autores indígenas apresentam seus textos na lingua de origem, em guarani e portugês por exemplo. (cf. p. 12 da minha tese)
(...)
Nessa perspectiva, o texto literário convoca a uma leitura interdisciplinar e, ao mesmo tempo, permite observar a relação entre identidade, autohistória, deslocamento e alteridade entre outras questões que se depreendem da poesia e da narrativa. Essa relação suscita uma leitura entre real e imaginário, oralidade e escrita, ficção e história, tempo e espaço, individual e coletivo e de outros encadeamentos imprescindíveis à apreensão da autonomia do discurso e da cumplicidade multiétnica (diálogo) que emanam dos textos literários (poemas, contos, crônicas) e da ecocrítica nos depoimentos, nas entrevistas, nos artigos e outros textos de autoria indígena. (cf. p. 13 da minha tese)

3) LCB - É possível apontar aspectos que padronizam a literatura indígena?
GG - A literatura (indígena ou não), no meu ponto de vista, tende a rejeitar qualquer aspecto que tente enquadrá-la ou prendê-la. A minha proposta diante do texto literário fundamenta-se em primeiro lugar no direito à literatura; em modelos de análises relacionadas às literaturas e às teorias que trafegam na contramão denominadas também de literaturas híbridas, periféricas ou observadas como um ‘terceiro espaço’, como diria Zilá Berned (1998) em suas reflexões acerca da pesquisa literária e dos estudos culturais. (cf. p. 13 da minha tese)

4) LCB - Como escritores indígenas quais suas principais parcerias, seus anseios e seus percalços?
GG - Na condição de escritora indígena, procuro vivenciar os seguintes versos que escrevi há bastante tempo:

Ao escrever,
dou conta da ancestralidade;
do caminho de volta,
do meu lugar no mundo


(Graça Graúna).

5) LCB - Vocês consideram a sua escrita como literatura engajada?
GG - Quando escrevo, acredito que em minha escrita se manifesta a literatura-assinatura de milhões de povos excluídos na história dos 500 anos. Portanto, posso dizer que há no meu fazer literário traços de literatura engajada. Segue um de meus poemas para ilustrar a questão:


Canción peregrina (*)


I

Yo canto el dolor
desde el exilio
tejendo un collar
de muchas historias
y diferentes etnias

II

Em cada parto
y canción de partida,
a la Madre-Tierra pido refugio
al Hermano-Sol más energia
y a la Luna-Hermana
pido permiso (poético)
a fin de calentar tambores
y tecer un collar
de muchas historias
y diferentes etnias.

III

Las piedras de mi collar
son historia y memória
del flujo del espírito
de montañas y riachos
de lagos y cordilleras
de hermanos y hermanas
en los desiertos de la ciudad
o en el seno de las florestas.

IV

Son las piedras de mi collar
y los colores de mis guias:
amarillo
rojo
branco
y negro
de Norte a Sur
de Este a Oeste
de Ameríndia o Latinoamérica
povos excluidos.

V

Yo tengo un collar
de muchas historias
y diferentes etnias.
Se no lo reconocem, paciência.
Nosotros habemos de continuar
gritando
la angustia acumulada
hace más de 500 años.

VI

Y se nos largaren al viento?
Yo no temeré,
nosotros no temeremos.
Si! Antes del exílio
nuestro Hermano-Viento
conduce nuestras alas
al sagrado circulo
donde el amalgama del saber
de viejos y niños
hace eco en los suenos
de los excluidos.

VII

Yo tengo un collar
de muchas historias
y diferentes etnias.


* poema do livro Tear da Palavra, de Graça Graúna. Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2007, p. 11-12.

6) LCB - Como vocês veem o futuro para a Literatura Indígena?
GG - Nessa perspectiva discute-se o lugar da literatura nas sociedades indígenas e a sua relação com a literatura brasileira. Creio que temos um longo caminho a percorrer. O movimento literário indígena (no encontro de escritores que anualmente acontece no Rio de Janeiro, junto à FNLIJ, ao NEARIN e ao INBRAPI) é já uma prova da nossa autonomia, da nossa resistência.


Sexta-feira, 1 de maio de 2009


Samuca me provocou...rsrsrs...respondi na lata


1º de Maio - dia consagrado ao trabalhor
Samuca Santos é uma crituara que trabalha a poesia com o suor do seu rosto. No dia do trabalhador, ganhei de presente a sua doce companhia: na lata.

1. por que você escreve?
Responder a esta pergunta não é uma tarefa fácil. Sendo indígena-descendente Potiguara (RN), tomo a liberdade de responder com uns versos que eu teci há muitos anos:



ao escrever
dou conta da ancestralidade
do caminho de volta
do meu lugar no mundo

2. para que?
Na medida do possível, escrevo para compreender a diversidade cultural e não perder o ritmo da teia da vida. Dentro das minhas limitações, escrevo na tentativa de contribuir com a luta pelos direitos humanos.
3. o que a levou a começar?
Não dá pra esquecer o momento que gerou em mim a consciência em torno do exercício de escrita. Primeiro veio o espanto misturado à dor e ao pranto diante da violência nas histórias contadas por uma menina judia. Esta é uma das lembranças mais fortes da minha adolescência. Foi o que senti/intui ao ler o Diário de Anne Frank. Achei que ali estava escrito o fim do mundo, que a vida não tinha mais chance de continuar no meio de tanta guerra. Meu pai que era ex-combatente, também falou dos horrores que ele viveu lá em Monte Castelo, na Itália. Posso dizer que Anne Frank contribuiu para a minha iniciação na escrita que eu considero um campo de batalha.
4. quais os prazeres do fazer literário?
Prazeroso é perceber que o universo pode habitar em um pontinho daquilo que escrevemos; prazeroso também é manter-se insatisfeito no mar da escrita.
5. e os desprazeres?
Desprazeres são muitos: a começar pelo preconceito literário no tocante a falta de apoio à literatura indígena e o desrespeito aos direitos autorais.
6. quem habita a estante da sua mente?
Uma multidão de pessoas, nomes e lugares... a começar por Ñanderu (Nosso Pai, em guarani) que invoco sempre e sobretudo agradeço pela alma de cada palavra que me chega ou vai com o vento. A ancestralidade habita os instantes das palavras que escuto, falo e escrevo. Primo pela oralidade, pelos mitos e em papel e tinta, carrego comigo uma série de poetas, pensadores e prosadores que eu amo bastante... Pessoa, Lorca, Bandeira, Drummond, Neruda, Risério, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Luis Jardim, Graciliano Ramos, Quintana e Walter Benjamin, entre outros.
7. se não literatura, o que faria?
... eu concentraria minhas forças para catar/cantar/contar a música do ventre do vento(*), da teia da vida.

(*) ventre do vento - uma expressão poética de Antonio Risério, em Orik Orixá (1996).
Graça Graúna: potiguara (RN), poeta, ensaísta, professora universitária. Tem 3 livros publicados e mais um tanto em busca de editor. Como conferencista fala do direito à Literatura Indígena.
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Nota: entrevista publicada no Overmundo.


1) Graça Graúna entrevistada por Leila Miccolis, 
Fernando Tanajura Menezes e Ricardo Alfaya
 Graça Graúna

Perguntas de Leila Miccolis

1 – Onde você nasceu?
Nasci na antiga vila (hoje, cidade) de São José do Campestre, no Rio Grande do Norte. Passei a infância com D. Conceição Amador, minha avó materna, uma das fundadoras dessa cidade.
2 – Reside em outro lugar? Qual e por quê?
A vida difícil no interior me fez retirante desde cedo. Por volta de 1958/59, com a minha mãe (costureira), meu pai (pescador, ex-combatente da 2ª Guerra) e meus cinco irmãos saímos do Rio Grande do Norte em uma velha Maria Fumaça com destino a Recife; onde resido até hoje.
3 – Solteira/o? Casada/o? Filhos? Fale um pouco sobre o amor na sua vida.
Mãe solteira, três filhos e quatro netos. Sobre o amor? Se é que se pode chamar de amor a relação que tira as asas da gente "confesso que vivi". E vou vivendo com o meu quixotismo.
4 – Que livro(s) você editou pela Blocos (nome da obra e ano)
Canto Mestizo (poesia), em 1999. Pela mesma Editora estou incluída no projeto 500 anos de poesia.
5 – Quais suas outras ocupações e preocupações, além da Literatura?
Meu dia a dia é dar aulas de literatura na universidade; minha ocupação e preocupação constantes; sobretudo, quando se trata da chamada literatura periférica, no caso a literatura indígena. Afora isso, sou pesquisadora na área dos Direitos Humanos.
6 – Do que você se arrepende mais na vida? E do que você mais se vangloria?
Arrependimento? Sim, quando não me devolvem os livros que eu empresto. Tenho, sim, mil razões pra me vangloriar da minha pequena tribo/família e dos amigos que a vida me deu: Pascoal Motta, Lourdes Sarmento, Cyl Gallindo, Leila Miccolis e outros poetamigos.
7 – Como você definiria sua obra?
Falta muito chão pra dizer que eu tenho uma obra. Apenas escrevi um livro de poemas que foi editado pela Blocos. Tenho participação em várias publicações coletivas de poesia e ensaios; na gaveta alguns manuscritos em busca de um editor. Pelo conjunto, posso até arriscar uma definição: cada poema, cada
ensaio, cada artigo que eu escrevo é uma provocação ao leitor.
8 – Algum esporte? Alguma mania?
Gosto de fazer caminhadas, mas dá uma preguiça danada acordar cedo. Mania. Um ritual: adoro fazer pães e multiplicá-los; lembrando a presença simbólica de Deus em nossas vidas.
9 – Cite seus autores, músicas e filmes inesquecíveis.
Sou fascinada por Rilke, Lorca, Barthes, Drummond, Solano Trindade, Lou Andreas Salomé, Florbela... Na música me interessam os cantos indígenas, os mantras, o espirito caribenho e cubano; os batuques e maracatus; Vila-Lobos; o jazz de David Sanborn; o trovar de Zé Ramalho e Paulinho Pedra Azul; o
experimentalismo de Arnaldo Antunes e outras vozes da nossa riquíssima música brasileira. Quanto aos filmes, não dá pra esquecer nunca "The Doors", "Sociedade dos poetas mortos", "Missões" e, entre outros, "Coração iluminado", de Babenco.
10 – Alguma experiência engraçada, curiosa ou dramática ocorrida devido à algum texto (poesia ou prosa) que você escreveu?
Escrevi um poema intitulado "Vadiagem" (Cf. Canto Mestizo). Nele procurei descrever a brincadeira da meninada tirando frutas do quintal do vizinho. Até aí, nada demais. Um banda pernambucana (Batuque) viu e gostou do poema e musicou com outro título: Maloca (Cf. o CD. Pernambuco em Concerto, África
Produções). Quando o grupo canta Vadiagem/Maloca o público vira criança; sai todo mundo correndo, feito maloqueiro, brincando um com outro.
11 – Vida e obra precisam caminhar juntas ou podem tomar rumos diferentes e até contraditórios?
Dizem que o homem é o que escreve. Cervantes vence o tempo. Quixote vive.
12 – Entre aquela viagem ou aquele carro que você tanto sonhou e a publicação de seu livro com tiragem de 10.000 exemplares, qual dos dois você escolheria?
Imagine uma situação inusitada: trocar um Drummond velho por um Drummond novo. Não entendo de carros. Viajar até que é bom, mas prefiro concordar com Pessoa: "para viajar, basta existir". Sendo assim, sou mais o livro; mesmo que a tiragem fosse de poucos exemplares.
13 – Que personagem de ficção você gostaria de ser na vida real?
Por causa da minha origem (sou potiguar) tenho afeição por Marabá, personagem/título de um poema de Gonçalves Dias. Marabá significa "filha da mistura, mestiça. Nas histórias de cidade grande, tenho igual afeição por "Lóri"; uma personagem de Clarice Lispector, em Uma aprendizagem ou o livro dos
prazeres.
14 – Você já cometeu alguma gafe ou indiscrição literária?
Faz muito tempo. Foi no início do meu magistério com uma turma do segundo grau. Pedi que os alunos estudassem a Carta de Caminha, como se esta fosse a certidão de batismo do Brasil. No debate, os alunos mais questionadores contestaram a minha colocação. Depois me dei conta do absurdo que eu fizera,
ao cair nas armadilhas do famigerado livro do professor. Em tempo, alertei para o fato de que os professores eram obrigados a trabalhar com o livro adotado pelo colégio; pois em vez do livro do educador, exigiam que trabalhássemos o ivro do educastrador. Desse dia em diante nos tornamos mais unidos e mais
inquietos, para sempre.
15 – Qual seria (ou será) a maravilha do século 21?
Quando reconhecerem o que é de direito dos povos indígenas.
16 – Você comemora o Dia Nacional da Poesia ou do Livro? De que forma?
Comemoro a paixão pela escrita, escrevivendo o desejo.
17 – Que autora ou autor você escolheria para ficar a sós numa ilha deserta e por quê?
"... há nos homens e mulheres marginalizados, um universo de imagens, desejos e impulsos sepultados". Por essa consciência do marginalizado (In: Labirintos da solidão), escolheria Octavio Paz.


Perguntas de Fernando Tanajura Menezes:

1 – O que você gostaria de perguntar a um escritor? (consagrado ou não)
Para Aníbal Beça, por exemplo, eu perguntaria sobre a difícil arte de fazer Hai kais.
2 – Como escritor/poeta o que gostaria que lhe fosse perguntado em uma entrevista?
Sobre os problemas que eu enfrento quando estou escrevendo.
3 – O que mais detestaria que lhe perguntasse se a entrevista fosse ao vivo?
Nas entrevistas ao vivo, ou não, o que eu detesto é a falta de liberdade de expressão; e entraria no silêncio prosador se alguma pergunta descambasse pra intimidade.

Perguntas de Ricardo Alfaya:

1 – Por que você escreve?
Por necessidade, extrema necessidade, como orienta Rilke em Cartas a um jovem poeta.
2 – O que você considera mais importante para que uma poesia seja classificada como de boa qualidade?
Penso que o importante é não faltar com a verdade. Quando verdadeira, a poesia contribui para o enriquecimento do patrimônio literário.
3 – Que autores influenciaram sua forma de escrever?
Nos tempos de ginásio eu lia, declamava, imitava, copiava Jorge de Lima, Drummond, Cecília, Bandeira. Nos anos 70, li o Proibido para menores de 18 amores, de Leila Miccolis e Franklin Jorge. Esse livro deixou em mim, como leitora, a inquietude no sentido de dialogar com o texto e, ao mesmo tempo, fazendo-me compreender que as minhas encucações literárias só teriam significação a partir da troca de idéias. Entrei em contato com Leila Miccolis que eu conheço há uns duzentos anos só através de carta, telefone e e-mails.
Outra influência marcante: as lições de vida de Cora Coralina. Na flor da idade Coralina exilou os escritos que o público só veio conhecer em 1965, em Os becos de Goiás. Quando li a grandeza de Coralina, tive a sensação de que precisaria e preciso ainda me esforçar bastante no exercício de escrita, a fim de percorrer os caminhos onde é prazeroso jogar com o imaginário e a utopia.
4 – Sente o escrever como missão, lazer, prazer ou como conditio para a sobrevivência? Você acha que poderia parar de escrever?
Nunca é demais lembrar os ensinamentos de Rilke em Cartas ao um jovem poeta. Missão, prazer, necessidade sim. Parar de escrever implica, para mim, anunciar a própria morte. Se eu parasse de escrever, quem me ouviria?
5 – No seu entender, o compromisso social é uma condição essencial para um bom escritor?
Literatura e sociedade não se separam. Nessa relação, a liberdade é e será sempre a condição necessária para o escritor testemunhar o seu tempo; não quer dizer com isso que ele seja bom. Seja lírico ou engajado, o bom escritor é aquele que está atento também ao trabalho com a linguagem; indispensável quando se trata, por exemplo, do poder comunicativo da poesia.
6 – Que influência a Internet exerceu em sua escrita?
No comecinho mesmo, confesso que eu tive preconceito com essa realidade chamada virtual. Meu computador, coitado, só esperando que eu deixasse a  matutice e navegasse de Recife para o mundo. Resolvi estudar o assunto, até Page Maker aprendi pra diagramar meus livros, etc e tal. Quando o tempo
permite, me dou ao luxo de participar do ciberespaço e me emociono quando (re)encontro vozes exiladas em Blocos, REBRA (Rede de Escritoras Brasileiras), Nave da Palavra e Jornal de Poesia. No embalo da ‘rede’(Internet), há dois anos (em 99) burilei um pequeno texto poético sobre o "8 de março", recentemente veiculado na Rebra e na página temática de março em Blocosonline.
7 – Você acha que sua escrita poderá vir a afetar de alguma forma a realidade?
Recentemente tive notícias de que meu Canto Mestizo foi trabalhado em uma escola do 2º grau (Colégio Agnes) em Recife e apresentado também no circuito universitário (UPE, Campus Nazaré da Mata) no interior do Estado. Pelo meu estilo e minha expressão dizem que incomodo. Sendo assim, creio que a minha
escrita afeta a realidade (local) sim.
8 – Que qualidade considera fundamental num escritor?
Penso nas boas palavras de Alaíde Lisboa de Oliveira, escritora, Cidadã Belorizontina, (In: Impressões de Leitura). No dizer de Alaíde, o fundamental é alma. No poeta, a alma é um espelho; reflete tudo, a variadas distâncias.
9 – A crítica literária ajuda ou atrapalha?
Como poeta e ensaísta a crítica literária em geral me ajudou muito a encontrar o caminho. À Leila Miccolis, por exemplo, não sei como agradecer tanto carinho ao prefaciar o meu livro.
10 – É notório que existe uma quantidade enorme de escritores, sobretudo no campo da poesia, em detrimento do número de leitores. A grande quantidade é para você um incentivo ou um desalento?
No jogo do imaginário com a utopia, sempre cabe mais um, desde que tenha veia poética pra expressar a vivência e manejo com as palavras. Enquanto mais e mais poetas, melhor. Não há razão para desalento.
11 – O que acha que poderia ser feito, se é que poderia, para que mais
pessoas se interessassem pela literatura?
Já fiz tanto essa pergunta a mim mesma e em sala de aula, que eu perdi a conta. Vamos ver... estimular o hábito de leitura que começaria em casa e continuaria na escola? Não, isso não dá. É utópico. Não precisa de sala de aula pra cultivar o interesse pela literatura. Nem giz, nem quadro negro. Um graveto pra desenhar o chão seria uma boa pedida; Paulo Freire deu lições disso. Depois, com a coragem de arregaçar as mangas juntaria tijolo por tijolo de palavra pra (re)começar a história com solidariedade. Quem quiser, pode até começar do jeito falado: era uma vez uma personagem chamada literatura que, por muitos e muitos anos, andou maltratada. Então,...
12 – Que ambiente você prefere para escrever?
No meu quartinho de estudo, mesmo bagunçado.
13 – Manhã, tarde, noite - Existe um horário que lhe seja mais propício ao escrever ou isso lhe é indiferente?
Trabalhando os dois expedientes, o mais propício para mim tem sido à noite.
14 – Você utiliza algum artifício que o induza a um estado de espírito favorável à escrita?
Normalmente, visto uma roupa leve; fico à vontade, piso no chão frio pra espantar o sono e me entrego à escrita. Só acho complicado quando durmo muito tarde. Haja disposição pra dar aulas pela manhã.
15 – O que é melhor: escrever ou ver publicado?
As vezes me sinto fora do parágrafo quando Escrevo, mas quando vejo o que foi publicado dá um certo alívio. Mas sempre paira um desassossego.
16 – Escrever em computador, à mão ou em máquina de escrever. Faz diferença para você?
Em primeiro lugar, o papel e a tinta. Apesar de barulhenta, tenho saudades da minha maquininha de escrever. No computador ganho mais tempo.
17 – Qual a pergunta que você gostaria que eu lhe tivesse feito e que não fiz?
Como se diz por aqui (em Pernambuco), foi ARRETADO; uma entrevista e  tanto. Agradeço a atenção e o carinho de todos.

  2comentários:


Madalena Barranco disse...
Olá Graça, ah, não resisti à leitura de mais esta entrevista neste domingo de sol! Hehehe - eu também detesto quando não me devolvem os livros (que é isso um desrespeito É mesmo) e também adoro fazer caminhadas (limpa a mente e inspira a escrever). Ah, Graça, jogar com o imaginário é de fato muito prazeroso, pois é o meio certo de descobrir e cultivar com amor a fantasia que vive na realidade - e eu - sou súdita da dona Fantasia - heheh! Então, eu finalizo com: Era uma vez Graça Graúna, que encontrou a fórmula da vida eterna na literatura". Beijos.

Educadora em Direitos Humanos disse...
Um comentário do poetamigo Cyl Gallindo (cylgallindo@yahoo.com): Recife, 25-03-08 Uso o termo que todo mundo usa, mas que você usou-o com muita propriedade: ARRETADO. Perguntas e Respostas, todas de excelente nível. O melhor trecho foi aquele onde você declara (com mais propriedade ainda) que Literatura e Sociedade não se separam, são uma coisa só. Parabéns pela lucidez. Adorei (claro, a vaidade é está inerente ao ser humano) ver-me citado entre seus melhores amigos. Só omitiu um detalhe: o esforço próprio, os afagos, a atenção, a dedicação, TUDO o que você dá e dedica a essas pessoas (quase sem recompensa, pelo menos de minha parte) para conquistá-las. Amigos que deviam carregá-la em "cadeirinha de algodão". Um beijo e muito obrigado. Cyl Gallindo


2) Leila Miccolis entrevistada por Graça Graúna
Leila. Imagem Google.

Quando Cida Pedrosa incumbiu-me de fazer uma entrevista com Leila Miccolis para publicar na INTERPOÉTICA, veio a recomendação de apresentá-la em março: mês dedicado a mulher. Confesso que tremi diante do desafio, tanto que me sinto um ser privilegiado pela grande oportunidade que é de trocar algumas idéias com uma das mulheres mais criativas de que se tem notícia no panorama da atual literatura brasileira. Tenho a honra de apresentar uma das faces da literatura que tem a marca da teimosia e da qual faz parte uma argila pensante: Leila Miccolis – mestre em teoria literária, escritora comprometida com o social e não poderia ser diferente, pois esta é uma de suas características mais acentuadas; um fazer literário de mulher que ama a vida, que busca seu lugar no mundo e que sabe eternizar sua inquietação na história da inteligência deste país.
Para saber mais de Leila Miccolis, é importante visitar um de seus habitats na Internet, onde atualmente e já há bastante tempo ela divide com o poeta Urhacy Faustino a responsabilidade de manter o Portal Blocos, que tem o selo da UNESCO e é um dos mais visitados no mundo literário; mundo este em que ela não para de refletir também sobre os direitos da criança, os direitos da mulher, direitos autorais, isto é, direitos humanos... entre outras questões que transcendem os chamados temas transversais.
Em suas andanças, teve a oportunidade de conhecer Recife onde esteve na década de 80; ela diz que essa terra só traz belas recordações e acrescenta: “amo-a profundamente, minha alma é baiana, por parte de mãe, e pernambucana, de coração”.
Nunca é demais agradecer à Cida Pedrosa pela alegria que me proporcionou ao convidar-me para fazer esta entrevista e à Leila, também, pelo carinho e atenção; pois em meio a tantos fazeres, Leila ainda arrecadou um tempinho e enviou (no dia 20 de fevereiro de 2008, à noite) o seguinte e-mail para mim: “Querida, uma bela entrevista - nem podia ser diferente, partindo de você. É raro, através das perguntas, o entrevistado rever sua vida, fazer uma espécie de reflexão sobre ela. E você, habilmente, conseguiu isto de forma notável”.

GRAÇA GRAÚNA: comecemos pela chamada poesia social ou engajada, mas sem deixar de lado o lirismo. Em sua poesia é nítida a voz de mulher que está à frente de seu tempo. Explique essa história, por favor.
LEILA MICCOLIS: Sempre me revoltei com o jogo de aparências e com a hipocrisia da relação familiar ou a relação a dois. E minha poesia questiona esses papéis sociais impostos, manipuladores, responsáveis pela internalização da submissão, da castração, da culpa e da baixa estima feminina. Minha poesia sempre reagiu contra inúmeras regras preconceituosas que nos são ensinadas no comportamento diário como verdades eternas e imutáveis, e que são tão comuns, nos parecem tão “naturais”, que nem as questionamos. Este é meu alvo principal: a violência inconscientemente consentida, porque nem percebida é, muitas vezes, de tão sutil e arraigada em nossos hábitos e costumes. A primeira parte de minha obra é bastante agressiva; depois, passa a ter mais humor, maior ironia... embora continue ferina. Por isto, eu discordo quando “classificam” minha poesia de sensual: ela pode até falar de cama, mas não enfoca propriamente o sexo libidinoso, e sim critica os padrões convencionais que servem, principalmente, de instrumento de controle social.

Na década de 80, você esteve no Nordeste do Brasil e teve oportunidade de lançar a Antologia Mulheres da Vida, mas sofreu com o preconceito literário em torno dessa antologia. Fale do que aconteceu com você.
O incidente ocorreu no Ceará, e o interessante é que o preconceito partiu das próprias livrarias locais: naquela época o título causou muita polêmica, e os livreiros acharam que a antologia podia prejudicar-lhes, macular a seriedade da imagem comercial. Para piorar, algum afoito jornalista que não tinha lido o livro e nem mesmo visto o nome das autoras, publicou uma matéria afirmando se tratar de um livro em que dez prostitutas falavam de suas vidas. Foi a gota d’água, porque só atualmente esse tipo de livro tem espaço e divulgação na mídia; na década de 80, livraria “que se prezasse” queria apenas vender obras intelectualizadas (mesmo que pseudo-intelectualizadas... rsss...). Depois de várias recusas, desanimada, falando por telefone com uma das participantes, a escritora natalense Socorro Trindad, ela sugeriu que eu lançasse a obra em um bordel, já que, por lá, nossa fama era essa... Gostei da idéia e autografei o livro no “Cabaré Estrela do Oriente”. O lançamento transformou-se em um dos maiores sucessos de público e de venda de toda a minha carreira, com a presença de todas as mídias, uma verdadeira multidão, inclusive autoridades ligadas à Secretaria da Cultura, pois a noite de autógrafos transformou-se em uma manifestação, um manifesto vivo. Creio, porém, que o mais bonito de tudo foi a postura da dona do bordel e das mulheres que trabalhavam na noite, que souberam valorizar o livro de uma forma que, até hoje, me emociona quando lembro (fiz uma crônica sobre esse respeito enorme, carinhoso e comovente que recebi por parte delas: “Recuerdos do Ceará”). Foi um fantástico aprendizado não só dentro do meu ofício, mas uma maravilhosa lição de vida muito mais ampla.

O seu trabalho com a palavra vem de longas datas. Você escreveu mais de trinta livros, é autora de teatro e novela. Como vê a relação entre literatura e direitos humanos?
Os direitos humanos perpassam minha poesia o tempo todo, inclusive aborda o direito das crianças (um dos maiores elogios que já recebi foi de uma menina de oito anos que identificou meu poema em meio a de vários outros autores e respondeu à professora explicando que sabia que era meu, porque eu era a única que defendia os direitos das crianças). Porém, em âmbito mais restrito, há um direito que os próprios escritores transgridem constantemente ou nem dão valor: é necessário lembrar que os direitos humanos envolvem também os direitos autorais, a legalização da profissão do escritor (temos o direito de viver do prazer de escrever), o respeito que se deve ter de, pelo menos, pedir autorização para copiar gratuitamente algum trabalho alheio, e o firme propósito de não se promover o tal do “autor desconhecido”, porque, mesmo desconhecido e sem o devido crédito (desa-creditado, portanto) esse autor existe, e está sendo lesado, simplesmente ignorado em seus direitos humanos inalienáveis.
 
Dos livros que escreveu de qual ou quais você mais gosta? Na verdade, quero saber o que você pensa da sua literatura.
Sobre meus livros, acho que gosto de todos (embora seja um amor diferente por cada um deles) até mesmo do primeiro (levei anos exorcisando-o), mas que, de alguma forma, já continha o gérmen da minha poesia contestadora. Cada um deles, ao seu modo, me foi marcante e único. Quanto ao que eu penso sobre minha literatura, sei que ela incomoda ainda bastante e que continua causando, muitas vezes, profundo estranhamento nas pessoas. Porém esta desfamiliarização é inerente à linguagem poética: ironicamente, as metáforas têm o poder de provocar reflexões mais objetivas e ensejar reações mais rápidas. Talvez, por isso, a poesia seja tão temida e ameace tanto – tem sempre quem anuncie sua morte... É que ela pode provocar transformações drásticas com a rapidez de um raio ou de um flash, por sua concisão, sua intensidade dramática, por sua ação fulminante.

Qual foi o primeiro livro (escrito por homem ou mulher) que você leu acerca do universo feminino e até que ponto essa leitura contribuiu para a sua descoberta no campo da chamada literatura marginal?
Uma ótima pergunta, nunca pensei nela. Deixe-me ver... sempre li muito, principalmente literatura estrangeira, na juventude. Recordo-me da impressão que me causou Lin Yutang falando da condição das mulheres chinesas (“Peônia Rubra”, “O portão vermelho”, “Momento em Pequim”). Que me lembre ele foi o primeiro autor a acender em mim, aos treze anos, a centelha que me levaria a refletir sobre a condição da mulher, em sua trajetória submissa e/ou insubmissa. Também teve Proust (“A Caminho de Swan”) – vejo Swan como um personagem que não se dobrava a convenções e que, mesmo em um ambiente hipócrita, consegue resguardar seus valores mais nobres; e, ainda, Madame Bovary, de Flaubert. No Brasil, Érico Veríssimo me arrebatou com suas figuras femininas, desde Clarissa a Ana Terra – a última marcou-me emocionalmente bastante, pela sua força, garra e coragem. Bem depois apareceram em minha vida Beauvoir e Sontag – amo ambas – mas, antes de lê-las, minha poesia já tematizava padrões de comportamento.

Quintana dizia que um poeta deve escrever como se fosse o último ser vivente e não pensar o que pensarão os outros. Como você traduz isso, ressaltando o papel da mulher?
Vejo assim: mesmo quando você não pensa no que pensarão os outros, dentro do seu texto já há um leitor implícito ao qual você se dirige (só diário é que a gente escreve para si mesmo...). Saber então quem é esse público me parece bastante importante; mas concordo que não pode ser a parte principal no processo criativo, principalmente em se tratando de literatura escrita por mulheres, já tão atreladas a repressões e medos de que sua vida pessoal seja confundida com sua obra ficcional. Até hoje as pessoas ainda não entendem muito bem a primeira pessoa poética e confunde-a com a da autora (o episódio do Mulheres da Vida contado acima é uma mostra disso). Já houve autoras que escreveram sob pseudônimo – Colombina, por exemplo –, para que este limite fosse rigorosamente respeitado. Então, romper com esta espécie de barreira me soa imprescindível, porque, se você tiver medo do que os outros pensam ou pensarão de você ou do que você escreve, você acaba tolhida e restrita a visões contemplativas do mundo, muitas vezes parciais e extremadamente subjetivas. E, a meu ver ainda mais perigoso, você se autopolicia e se delimita restrições desde o início. A quebra, a ruptura desta pessoa indistinta: autor-e-personagem é indispensável. Porém, como disse e friso, não a ponto de ignorar-se o leitor, para também não se cair na armadilha de rejeitar-se todo processo de recepção da obra, e dela alijar-se o outro.

A propósito das dificuldades que a mulher, geralmente, enfrenta na sociedade quero saber se você sentiu, alguma vez, problemas em ser escritora-mulher.
Muitas vezes. Desde o início ouvi comentários de que “mulher não escrevia assim”. É que minha poesia não é do tipo que se espera de uma mulher ou que visa agradar a todos. É uma poesia que você sorri, mas logo depois fica séria e pergunta: estou sorrindo de quê?... Em geral a poesia feminina – com raras exceções que só confirmam a regra – ainda é uma poesia lírico-romântica, em que o universo da mulher é idealizado e localiza-se distante de sua realidade cotidiana. Diferentemente, eu falo das contradições do sistema, do autoritarismo que herdamos de nossos pais e que transmitimos às novas gerações, das repressões que muitas vezes nem nos conscientizamos delas, etc. Então, é perfeitamente compreensível que minha poesia tenha tido (e causado) problemas, até mesmo com as próprias mulheres, criadas mais para aceitar e perdoar sempre, do que para transformar suas próprias realidades caseiras ou o mundo “lá fora”. A mulher-sombra (“por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”) ainda é mais valorizada em uma sociedade patriarcal do que a mulher-revolucionária, que em geral é ridicularizada por esta própria sociedade, através da mídia.

Você se lembra de como ou quando descobriu que queria ser editora, sabendo que muitos(as) escritores(as) são criticados(as) pelo fato de pagarem a edição dos primeiros títulos?
Eu não quis nem quero ser editora, na verdade. Assim como nunca quis fazer performances poéticas. Porém, gosto tanto de trabalhar com literatura que acabei indo para o palco (que atualmente me diverte muito) e criando duas editoras: a Trote e a Blocos, a última com o Urhacy. Porém, de todas as atividades periféricas da minha profissão, a de editora de livros foi, infelizmente, a que mais me decepcionou. O ego, a vaidade, a soberba, a presunção, a prepotência, a onisciência e o complexo de superioridade da maior parte dos escritores me incomodam muito. Daí, eu e Urha resolvemos paralisar as atividades gráfico-editoriais da Blocos, ficando “só” com o portal (que é um projeto ideológico bastante caro, mesmo tendo o apoio inestimável do Bradesco). Quanto ao autofinanciamento é assunto que me interessa muito, sempre: tudo é pago (até o simples ato de andar a pé exige a compra de roupas e sapatos, e paga-se a pavimentação das ruas...). Só a poesia precisa ser financiada. Ainda bem que Bandeira, Rimbaud e tantos outros não tiveram pruridos em pagar suas obras, pois corríamos o risco de não conhecê-los hoje . Os poetas estrangeiros têm orgulho em financiar seus livros, eles fazem uma avaliação exata de cada fase desse processo: da criação à comercialização de sua obra, e não se iludem: em uma sociedade de consumo, a própria cultura tornou-se um bem cultural e o que não tiver valor monetário é desvalorizado. Vive de fantasia o autor que acredita que sua fama cairá dos céus e que alguma grande editora o descobrirá entre milhões de outros e o transformará em best-seller da noite para o dia, mesmo que ele tenha qualidades para isso. Como costumo repetir sempre, porém, o escritor em nosso país (principalmente o poeta) está mais para intrigas da corte do que para estratégias de marketing. Preferem ser vítimas da “sorte”, e, dentro de seu anonimato e amadorismo, continuam sonhando com a fama inatingível... Não raro encaram a literatura como “status” ou se servem dela apenas como prestígio pessoal, esvaziando-a, tornando-a apenas um exercício estéril e, pior ainda, um novo instrumento de poder.

Poesia e prosa. Em qual você se sente mais à vontade?
Poesia é minha menina-dos-olhos; mas é a prosa que me sustenta. Então, sem uma delas, não sei se morreria primeiro de falta de ar ou de inanição... rss...

Por que você escreve?
Creio que, de repente, é por uma reação bioquímica – para a formação, desenvolvimento e renovação das estruturas celulares... (risos). Ou seja: tenho a impressão de que escrevo para metabolizar a vida.

Nota: enrevista solicitada por Cida Pedrosa para o site Interpoética.

13 comentários:

Flores_Lilás_em_Campos_Secos disse...
que bom encontrar vc aqui minha linda xeru grande

Educadora em Direitos Humanos disse...
Do meu amigo Daniel Munduruku, recebi este recado deixado no Orkut. Gracinha, adorei as entrevistas. Lucidez é um prato feito em vcs duas. Parabéns. Bjs DM

Jorge Elias disse...
Olá Graça, Passei para mais uma visita. Gostei das entrevistas. Deixei um beijo no meu Blog. Abraços e parabéns, Jorge Elias

adjair disse...
Oi Graça; admiro vc por não se quedar em usar seu talento e saber, no engajamento pela justiça social e reconhecimento da diferença como base para uma sociedade, realmente, democrática. A cidadania exige espíritos audaciosos como o seu! Essa entrevista é muito a sua cara, seu talento e seu trabalho. Parabéns! xero. Preto.

Letras UPE 2007.1 disse...
hello olha só tamo passando para ar sinal de vida

Educadora em Direitos Humanos disse...
Eis um recadinho que a poetamiga Marcia Sanchez Luz deixou no Orkut, a propósito da minha entrevista com Leila Miccolis. Marcia disse: Graça, voltei lá para procurar, mas também não achei. Refiz meus passos para te enviar a mensagem. No dia, depois de ler a entrevista, fui lá na parte de cima, em Interpoética, cliquei "contatos" e escrevi pra você. Mas realmente não está lá - coisas de internet, uma pena! Mas reitero meus parabéns pela belíssima entrevista com nossa mais que querida Leila. Um beijo carinhoso, Márcia

Educadora em Direitos Humanos disse...
A amiga Marcia Hazin deixou esse recado no Orkut: Excelente entrevista, parab�ns.

Madalena Barranco disse...
Olá Graça, estava com saudade de seus textos, e ao visitá-la em seu blog, deparei-me com sua entrevista à querida Leila, que me permitiu conhecê-la melhor. Sem ilusões e com a firmeza que lhe é característica, a Leila fala um pouquinho de sua fórmula de sucesso, baseada no respeito que tem à própria alma e também ao leitor. Beijos. P.S. obrigada por manter meu comentário em sua "sidebar". Mais beijos!

Anônimo disse...
Também não resisti a mais um comentário da madalena barranco no blog Morango. Ele disse: Querida Graça Graúna, eu e a turminha das criaturas fantásticas estamos muito felizes em recebê-la no Morango, porque sabemos que você acredita na magia da vida e da floresta também! Obrigada - também coloquei um link seu no blog para que as pessoas possam conhecer sua maravilhosa arte.

Graça Graúna disse...
Recebi da poetamiga Tânia Diniz (memerg@gmail.com) o seguinte e-mail, no dia 4 de março de 2008: querida, visitei e amei seu blog! a entrevista com a Leila (que tbm apresenta nossa Anta ME, te contei?) foi excelente! Achei mesmo ex-ce-len-te, densa de conteúdo, muita bem feita, parabéns - a vc e ela! grande beijo, Tânia

Educadora em Direitos Humanos disse...
Recebi da poetamiga Cida Pedrosa(editores@interpoetica.com) o seguinte e-mail, no 3 de março de 2008: É com muito prazer que publicamos a entrevista exclusiva da escritora Leila Miccolis, concedida à escritora e irmã de luta Graça Graúna. Leila é um ícone, uma voz feminina importante e decisiva na quebra de paradigmas e preconceitos. DEVOREM!

Educadora em Direitos Humanos disse...
Recebi da poetamiga Leila Miccolis o seguinte e-mail (blocos@blocosonline.com.br) no dia 3 de março de 2008: Adorei, Cida e Graça, obrigada às duas, de coração. Já está na capa de Blocos e nesta segunda estarei enviando para a nossa extensa mala direta, com quase 10.000 cadastrados no portal. Beijos às duas, Leila

Educadora em Direitos Humanos disse...
O amigo Josa, professor da UPE deixou este recado no Orkut: ADOREI A ENTREVISTA, BEM ARTICULADAS E PERGUNTAS INTELIGENTES, PARABÉNS, A CADA DIA ME TORNO MAIS SEU FÃ BEIJOS , JOSA

Um comentário:

Ademario Ribeiro disse...

Gracinha, que lindeza, que força, que comprometimento com o belo e essencial, com nossa ancestralidade, com a palavra!

Que a Força continue contigo!!!

Beijos,

AR