domingo, 6 de agosto de 2017

II Jornada de Crítica Literária Ecocríticas da UNB, com Álvaro Tukano e Graça Graúna




II Jornada de Crítica Literária 
Ecocríticas: Estados de Natureza 

Datas: 14 e 15 de agosto de 2017 
Local: Auditório do IL, subsolo do ICC Sul 


1. Introdução ao evento 


        A Natureza já foi vista como o elemento negativo frente ao qual o Humano se afirmava. Sabe-se, hoje, que outras relações são possíveis - é o que mostra a vida e a experiência dos povos indígenas. No plano teórico, passou-se a pensar na Natureza enquanto múltiplo (o "multinaturalismo" de Eduardo Viveiros de Castro) e na inadequação do conceito (a "ecologia sem natureza", de Timothy Morton). Dentro do que chamaríamos de "Cultura", sabe-se que o fundamento do Estado é biológico - seja na relação do conceito de soberania com o animal (em Agamben e Derrida), seja na relação biopolítica do Estado com os seus sujeitos (Foucault). 
       Trata-se ainda, portanto, de repensar o conceito de Estado através de sua relação com o "natural", problematizando os conceitos utilizados. Se, nas teorias do Estado que surgiram na esteira do contato dos europeus com os ameríndios, pensava-se num "Estado de natureza" como ficção explicativa do contrato social, pode-se agora pensar em Estados de Natureza, uma multiplicidade de relações que aproximam e contrapõem o Estado enquanto prática político-policial a uma Natureza múltipla sob constante ameaça. 
       Tais relações múltiplas perpassam o campo dos estudos literários. A consolidação da área da Ecocrítica, nos últimos anos, reafirma a relevância de se discutir as múltiplas relações entre “natural” e humano. Dentro do panorama contemporâneo, devassado pela crise ambiental e por crises humanitárias sem número, a crítica literária tem uma responsabilidade frente ao presente: como pensar uma literatura que se engaja em temáticas que cruzam os campos do Estado e da “Natureza”? 

Promoção:
Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea

Agências financiadoras: FAP-DF e CAPES

Coordenador: Pedro Mandagará (UnB)

Comissão Organizadora:
Anderson Luís Nunes da Mata (UnB)
Leila Lehnen (University of New Mexico)
Patrícia Trindade Nakagome (UnB)
Virgínia Maria Vasconcelos Leal (UnB)

Comissão Científica:
Ana Cláudia da Silva (UnB)
Devair Fiorotti (UERR-UFRR)
Regina Dalcastagnè (UnB)
Vinícius Gonçalves Carneiro (Paris-IV)

Programação e convidados
Dia 14 de agosto
19h – Abertura do evento
19h30 – Literatura e Direitos Humanos
Graça Graúna (UPE) Álvaro Tukano (Memorial dos Povos Indígenas, DF)

Dia 15 de agosto
9h30 – Biopolíticas 
Leila Lehnen (Universidade do Novo México)
Graziele Frederico (UnB)
Paulo Thomaz (UnB)

13h30 – Ecocríticas
Victoria Saramago (Universidade de Chicago)
Antonio Barros de Brito Junior (UFRGS)
Jorge Luiz Adeodato Junior (UFC)

16h – Alteridades 
Lucia Sá (Universidade de Manchester)
Devair Antonio Fiorotti (UERR-UFRR)
Waldson Souza (UnB)

18h – Lançamento das Edições Carolina Lançamentos de livros

terça-feira, 25 de abril de 2017

Uma canção em prol das terras indígenas

Foto: Agência Senado
Fonte: Folha de São Paulo
Uma canção em prol da demarcação de terras indígenas ecoa entre os indígenas, na Mobilização Nacional Indígena, entre os dias 24 a 28 de abril.. Composta por Carlos Rennó e musicada por Chico César, a canção “Demarcação Já” foi gravada por dezenas de artistas com destaque na cena musical brasileira.
Participaram da gravação, além de Chico César, Arnaldo Antunes, Criolo, Céu, Djuena Tikuna, Dona Odete, Elza Soares, Gilberto Gil, Felipe Cordeiro, Letícia Sabatella, Gilberto Gil, Lenine, Lirinha, Margareth Menezes, Maria Bethânia, Nado Reis, Ney Matogrosso, Russo Passapusso, Tetê Espíndola, Zeca Baleiro, Zeca Pagodinho, Zé Celso (Teatro Oficina) e Zélia Duncan.
A composição da música é uma iniciativa do Greenpeace, Instituto Socioambiental, Bem-te-vi em parceria com as produtoras Cinedelia e O2. A  letra da canção e o vídeo critica govmerno e ruralistas em prol da demarcação de terras indígenas.

https://youtu.be/wbMzdkaMsd0

“Demarcação já”


Já que depois de mais de cinco séculos
E de ene ciclos de etnogenocídio,
O índio vive, em meio a mil flagelos,
Já tendo sido morto e renascido,
Tal como o povo kadiwéu e o panará

– Demarcação já!
Demarcação já!

Já que diversos povos vêm sendo atacados,
Sem vir a ver a terra demarcada,
A começar pela primeira no Brasil
Que o branco invadiu já na chegada:
A do tupinambá –

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que, tal qual as obras da Transamazônica,
Quando os milicos os chamavam de silvícolas,
Hoje um projeto de outras obras faraônicas,
Correndo junto da expansão agrícola,
Induz a um indicídio, vide o povo kaiowá,

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que tem bem mais latifúndio em desmesura
Que terra indígena pelo país afora;
E já que o latifúndio é só monocultura,
Mas a T.I. é polifauna e pluriflora,
Ah!,

Demarcação já!
Demarcação já!

E um tratoriza, motosserra, transgeniza,
E o outro endeusa e diviniza a natureza:
O índio a ama por sagrada que ela é,
E o ruralista, pela grana que ela dá;
Hum… Bah!

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que por retrospecto só o autóc
Tone mantém compacta e muito intacta,
E não impacta, e não infecta, e se
Conecta e tem um pacto com a mata
–Sem a qual a água acabará –,

Demarcação já!
Demarcação já!

Pra que não deixem nem terras indígenas
Nem unidades de conservação
Abertas como chagas cancerígenas
Pelos efeitos da mineração
E de hidrelétricas no ventre da Amazônia, em Rondônia, no Pará…

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que “tal qual o negro e o homossexual,
O índio é ‘tudo que não presta'”, como quer
Quem quer tomar-­lhe tudo que lhe resta,
Seu território, herança do ancestral,
E já que o que ele quer é o que é dele já,

Demarcação, “tá”?
Demarcação já!

Pro índio ter a aplicação do Estatuto
Que linde o seu rincão qual um reduto,
E blinde-­o contra o branco mau e bruto
Que lhe roubou aquilo que era seu,
Tal como aconteceu, do pampa ao Amapá,
Demarcação lá!
Demarcação já!

Já que é assim que certos brancos agem:
Chamando-­os de selvagens, se reagem,
E de não índios, se nem fingem reação
À violência e à violação
De seus direitos, de Humaitá ao Jaraguá;

Demarcação já!
Demarcação já!
Pois índio pode ter iPad, freezer, TV, caminhonete, “voadeira”,
Que nem por isso deixa de ser índio
Nem de querer e ter na sua aldeia
Cuia, canoa, cocar, arco, maracá.

Demarcação já!
Demarcação já!

Pra que o indígena não seja um indigente,
Um alcoólatra, um escravo ou exilado,
Ou acampado à beira duma estrada,
Ou confinado e no final um suicida,
Já velho ou jovem ou – pior – piá.

Demarcação já!
Demarcação já!

Por nós não vermos como natural
A sua morte sociocultural;
Em outros termos, por nos condoermos –
E termos como belo e absoluto
Seu contributo do tupi ao tucupi, do guarani ao guaraná.

Demarcação já!
Demarcação já!

Pois guaranis e makuxis e pataxós
Estão em nós, e somos nós, pois índio é nós;
É quem dentro de nós a gente traz, aliás,
De kaiapós e kaiowás somos xarás,
Xará.

Demarcação já!
Demarcação já!

Pra não perdermos com quem aprender
A comover-­nos ao olhar e ver
As árvores, os pássaros e rios,
A chuva, a rocha, a noite, o sol, a arara
E a flor de maracujá,

Demarcação já!
Demarcação já!

Pelo respeito e pelo direito
À diferença e à diversidade
De cada etnia, cada minoria,
De cada espécie da comunidade
De seres vivos que na Terra ainda há,

Demarcação já!
Demarcação já!

Por um mundo melhor ou, pelo menos,
Algum mundo por vir; por um futuro
Melhor ou, oxalá, algum futuro;
Por eles e por nós, por todo mundo,
Que nessa barca junto todo mundo “tá”,

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que depois que o enxame de Ibirapueras
E de Maracanãs de mata for pro chão,
Os yanomami morrerão deveras,
Mas seus xamãs seu povo vingarão,
E sobre a humanidade o céu cairá,

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que, por isso, o plano do krenak encerra
Cantar, dançar, pra suspender o céu;
E indígena sem terra é todos sem a Terra,
É toda a civilização ao léu
Ao deus­-dará.

Demarcação já!
Demarcação já!

Sem mais embromação na mesa do Palácio,
Nem mais embaço na gaveta da Justiça,
Nem mais demora nem delonga no processo,
Nem retrocesso nem pendenga no Congresso,
Nem lengalenga, nenhenhém nem blablablá!

Demarcação já!
Demarcação já!
Pra que nas terras finalmente demarcadas,
Ou autodemarcadas pelos índios,
Nem madeireiros, garimpeiros, fazendeiros,
Mandantes nem capangas nem jagunços,
Milícias nem polícias os afrontem.
Vrá!
Demarcação ontem!
Demarcação já!
E deixa o índio, deixa o índio, deixa os índios lá.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Enquanto o Pataxó dormia

Monumento em homenagem a Galdino
Foto: Lucas Salomão

Há vinte anos, cinco jovens de classe média alta atearam fogo no Pataxó Galdino; ele foi assassinado na madrugada de 20 de abril de 1997, enquanto dormia. Galdino estava em Brasília para reivindicar a demarcação do território Pataxó que foi invadido por fazendeiros na localidade de Pau Brasil, na Bahia. A foto refere-se ao monumento em homenagem a Galdino. (Foto: Lucas Salomão/G1). No poema seguinte, minha homenagem ao Pataxó Galdino:


Enquanto dormia

Um índio foi morto
numa parada de ônibus
do planalto central,
em Brasília.

Impossível esquecer
de Galdino Jesus
um guerreiro pataxó
exposto ao preconceito.

Enquanto dormia,
atearam-lhe fogo
em Brasília


                                   Graça Graúna
Nordeste do Brasil, abril indígena, 2017.


segunda-feira, 17 de abril de 2017

Memória das águas

Para refletir acerca do Dia 19 de abril (dia do índio), dedico este poema a todos(as) guardiões e guardiães das águas que percorrem os caminhos de Abya Yala (nome verdadeiro da América indígena, ou ameríndia). O poema “Memória das águas” faz parte da Antologia “Survival e Sincretismo”, organizada por Carolann Madden (EUA) e outros poet’amigos (poetas e amigos).
Na foto, um pássaro observa o rio sem vida após o rompimento da barragem, no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana/MG. A imagem foi extraída do site de noticias Uol e do Google.
Saudações indígenas,
Graça Graúna.


Imagem: Uol e Google 


Memória das águas


I
Onde havia abundância,
hoje é só tristeza.
São tantos os pesadelos
que a mísera paisagem
se alastra e, de norte a sul,
os filhos da terra
ouvem os soluços dos rios
vindos das profundezas da terra.

II
São tantos os rios ofendidos:
Tietê
Iguaçu
Ipojuca
Gravataí
Capibaribe
Potengi
Rio Doce
Rio dos Sinos
tantos rios poluídos...

III
Que mãe não consolaria o filho
açoitado, explorado, excluído,
impedido de ir e vir
no seu direito de rio?
Exaurida de tanto sofrimento,
a Mãe Terra acolhe os filho
no amalgama doloroso de água e lama,
arrastando-o,
pelo infindável caminho da memória
para alcançar o mar

IV
Em nome do “progresso”
os inimigos (obaîara)*
agridem a natureza
derrubam as florestas
deslocam os rios
envenenam as águas
destroem os sonhos
trucidam os filhos da terra.



V
Infindável é a memória das águas
e o caminho da resistência.
Dos rios que se foram
na contramão do progresso,
fica a esperança de reencontrar
o nosso lugar no mundo.


(*) obaîara: em tupi, significa inimigo da nação.

Graça Graúna
Nordeste do Brasil, abril indígena, 2017



Water memory

I
Where there was plenty,
today is just sadness
there are so many nightmares
so that the miserable landscape
spreads and, from north to south,
the earth's children
hear the sobs from the rivers
coming from the depths of earth.

II
There are so many offended rivers:
Tietê
Iguaçu
Ipojuca
Gravataí
Capibaribe
Potengi
Rio Doce
Rio dos Sinos
Too many polluted rivers ...

III
Which mother would not comfort its son?
flogged, exploited, excluded,
obstructed from coming and going
in its right of being river ?
exhausted by too much suffering,
Mother Earth welcomes its
children
in the painful blend of water and mud,
dragging them,
through the endless path of memory
towards the sea

IV
In the name of "progress"
the enemies (obaîara)*
attack nature
knock down the forests
move the rivers
poison the waters
destroy the dreams
slaughter the earth's children

V
Endless is the memory of waters
and the path of resistance
from the missing rivers
on the contraflow of progress,
remain the hope of rediscovering
our place in the world.


(*) Obaîara: in Tupi, it means enemy of the nation.

Graça Graúna
Nordeste do Brasil, abril indígena, 2017

segunda-feira, 20 de março de 2017

Defesa do povo Xukuru na Corte Interamericana de Direitos Humanos

As violações de direitos Humanos ao Povo Xukuru serão julgadas na Corte Interamericana de Direitos Humanos

 Imagem: unicap.br





Luis Emmanuel Barbosa Cunha[1]
Manoel Severino Moraes de Almeida[2]


O Povo Xukuru será ouvido na Corte Interamericana de Direitos Humanos. No período de sessões da Corte, de 10 a 28 de março de 2017, um dos casos mais emblemáticos de violação coletiva de Direitos Humanos ocorrido no Brasil finalmente dará um passo decisivo em busca de uma sentença de mérito favorável à luta indígena no Brasil e nas Américas.
O caso Xukuru chegou ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos, a partir da Comissão Interamericana de Direitos Humanos em 2002, marcado por alto grau de violência física, étnica, moral e simbólica contra os indígenas realizado pelo Estado brasileiro em seus atos comissivos e omissivos em não completar o processo de demarcação com a posse tranquila pelos indígenas de suas terras ancestrais. Com efeito, o Povo Indígena Xukuru aguarda há tempos a demarcação de suas terras, inicialmente prometida pelo Império brasileiro, desde que os xukurus participassem da Guerra do Paraguaia em favor do Brasil. A promessa do Império não foi cumprida, bem como permanece inadimplente a República em seu Estado Democrático de Direito.
Desde o início formal do processo administrativo de demarcação, há 29 anos, ainda existem não índios intrusados na terra, além de grandes perdas pessoais: o assassinato do grande líder Cacique Xicão, que liderou a ação proativa dos Xukurus na retomada de suas terras ancestrais, de Chico Quelé e de Geraldo Rolim, por exemplo. A tentativa de assassinato do Cacique Marquinhos também foi um momento de tensão. Hoje ele e Dona Zenilda, sua mãe, vivem ainda sob a proteção do Programa Estadual de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos.
Desde já, todo nosso apoio e solidariedade ao Povo Xukuru e aos peticionários: Justiça Global, CIMI, GAJOP e Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que têm feito um grande trabalho desde a primeira petição de mérito e cautelares junto à CIDH lá em 2002. Nesse caso emblemático, não está em jogo apenas o debate sobre o direito de propriedade, está também em jogo o respeito a um projeto de vida coletivo, extremamente importante para preservação de matas, das águas, das sementes caboclas e de uma cultura, enfim, para uma vida humana em pleno equilíbrio com a natureza; está em jogo o direito à vida e à integridade física; está em jogo o direito à autodeterminação dos povos e a liberdade de se expressar como lhe convém; está em jogo o reconhecimento dos Direitos Humanos como um fenômeno vivo e interdependente.


[1] Doutorando na pós-graduação em Direito pela UFPE

[2] Ex-membro da Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara de Pernambuco

quarta-feira, 8 de março de 2017

Retratos (8 de março)

Site: Yandê (Rádio indígena)


Retratos
Autora: Graça Graúna

Saúdo as minhas irmãs
de suor papel e tinta

fiandeiras
guardiãs
ao tecer o embalo
da rede rubra ou lilás
no mar da palavra
escrita voraz.

Saúdo as minhas irmãs
de suor papel e tinta
fiandeiras
tecelãs
retratos do que sonhamos
retratos do de que plantamos
no tempo em que a nossa voz
era só silêncio


Graça Graúna. Retratos. In: Antologia retratos (Org. Elizabeth Siqueira, Edições Bagaço, Recife/PE, 2004)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil

GRAÚNA, G. Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil. Belo Horizonte: Mazza, 2013.  




Maurício Silva
(Universidade Nove de Julho,
Avenida Francisco Matarazzo, 612, 05001-000,
São Paulo, São Paulo, Brasil).
E-mail: maurisil@gmail.com

Deve parecer, ‘no mínimo’, curioso a muitos leitores um livro que trata da produção literária indígena no Brasil, já que, para muitos interessados na expressão literária nacional - mesmo aqueles especialistas em crítica e historiografia literárias -, a existência de uma literatura indígena brasileira deve soar como algo, ‘no máximo’, hipotético. Isso pode ser tanto mais estranho, ao pensarmos não apenas numa literatura brasileira indígena, mas ainda numa literatura ‘contemporânea’ e que pode ser discutida na perspectiva de seus ‘contrapontos’...
É exatamente isso que faz a pesquisadora e professora universitária de origem indígena Graça Graúna, em seu mais recente livro: “Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil” (GRAÚNA, 2013).
A autora começa definindo a literatura indígena contemporânea nos seguintes termos:
[...] a literatura indígena contemporânea é um lugar utópico (de sobrevivência), uma variante do épico tecido pela oralidade; um lugar de confluência de vozes silenciadas e exiladas (escritas), ao longo dos mais de 500 anos de colonização. Enraizada nas origens, a literatura indígena contemporânea vem se preservando na auto-história de seus autores e autoras e na recepção de um público-leitor diferenciado, isto é, uma minoria que semeia outras leituras possíveis no universo de poemas e prosas autóctones (GRAÚNA, 2013, p. 15). 

Desse modo, a autora se propõe a estudar um conjunto de obras de autores da literatura indígena contemporânea de língua portuguesa, com base nos estudos culturais, propondo uma ‘leitura das diferenças’. Assim, sua abordagem não apenas confronta a atual produção literária indígena no Brasil com a produção não indígena, mas também busca discutir a relação daquela com conceitos como os de identidade, auto-história, deslocamento, alteridade e outros, numa perspectiva que se assenta na ‘transversalidade’.
Para Graça Graúna, a literatura indígena no Brasil continua sendo negada, da mesma forma que os próprios povos indígenas, apesar da luta em favor deles, desde a década de 1970, pela União das Nações Indígenas (UNI); da inclusão dos direitos dos índios na Constituição de 1988; do surgimento, nos anos 1990, do Conselho de Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Brasil (Capoib) etc.
Lembrando que
[...] o estudo da representação do negro e do índio na literatura requer uma abordagem específica [...] A expressão artística do ameríndio e do africano sugere uma leitura das diferenças, pois o ato de conhecer o outro implica o ato de interiorizar a história, a autohistória, as nossas raízes (GRAÚNA, 2013, p. 47),
a autora faz ainda uma revisão sucinta da influência e da representação do índio na literatura ocidental, em particular na brasileira, até chegar na literatura indígena contemporânea, que exprimem, entre outras coisas, um sentido de resistência e de sobrevivência, o direito à palavra oral ou escrita, a denúncia do neocolonialismo e da opressão linguística e cultural etc. Procura estudar, nesse sentido, com mais profundidade, a produção literária de Eliane Potiguara, Daniel Munduruku, Saterê Yamã, Olívio Jekupé e Renê Kithãulu.
Concluindo, a autora afirma:
Reconhecer a propriedade intelectual indígena implica respeitar as várias faces de sua manifestação. Isso quer dizer que a noção de coletivo não está dissociada do livro individual de autoria indígena; nunca esteve, muito menos agora com a força do pensamento indígena configurando diferenciadas(os) estantes e instantes da palavra. Ao tomar o rumo da escrita no formato de livro, os mitos de origem não perdem a função nem o sentido, pois continuam sendo transmitidos de geração em geração, em variados caminhos: no porantim, no traçado das esteiras e dos cestos, na feitura do barro, na pintura corporal, nas contas de um colar, na poesia, na contação de histórias e outros fazeres identitários que os Filhos e as Filhas da Terra utilizam como legítimas expressões artísticas, ligando-as também ao sagrado (GRAÚNA, 2013, p. 172).

Mobilizando um vasto cabedal de teorias e perspectivas metodológicas, que vão da antropologia (Clifford, Mindlin, Clastres) aos estudos culturais (Hall, Bhabha, Canclini), passando ainda pela teoria literária, pela filosofia e pela história, Graça Graúna nos oferece um estudo perspicaz e inteligente de um assunto ainda pouco explorado pela academia, mas que merece não apenas ser mais pesquisado, mas principalmente mais conhecido e respeitado pelos leitores e pesquisadores de nossa cultura. E seu livro constitui um importante passo nessa direção.


References
GRAÚNA, G. Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil. Belo Horizonte: Mazza, 2013.  

Received on August 12, 2014.
Accepted on May 15, 2015.
 
License information: This is an open-access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.

Acta Scientiarum. Language and Culture Maringá, v. 37, n. 3, p. 327-328, July-Sept., 2015