domingo, 31 de janeiro de 2016

De livros e girassóis





Não, ele não gostava de livros; ele amava livros, era louco por livros; de tal forma que teve ao seu alcance uma Bíblia, uma coleção amarela de romances franceses, as obras de Charles Dickens, Ésquilo, Shakespeare e muitos outros. Em meio ao universo de “natureza morta”, tudo parecia uma metáfora viva entre livros e girassóis.

Por volta de 1883, em carta aos amigos, ele escreveu: ”Os livros, a realidade e a arte são uma só coisa para mim”. Em janeiro de 2015, a biblioteca pública de Milão, na Itália, recebeu a exposição “Van Gogh e sua paixão pelos livros”. Da exposição fizeram parte cerca de trinta livros de diferentes autores que tratam da estreita relação entre pintura e literatura no cotidiano desse pintor.

Van Gogh comenta, em Cartas a Théo, de como é bela a arte em Shakespeare e se pergunta: “Quem é misterioso como ele? Suas palavras e sua maneira de fazer equivalem a um pincel fremente de febre e emoção. Mas é preciso aprender a ler, como é preciso aprender a ver e aprender a viver” (p. 27). Na condição de leitor, Van Gogh não esconde a sua admiração por Balzac e Zola; ele enfatiza que as obras desses escritores “produzem raras emoções artísticas naqueles que os amam, justamente porque eles abrangem a totalidade da época que descrevem”.

Os livros que Van Gogh levou para o seu universo pictural mostram como a paixão pela arte vence o tempo. As opiniões de Van Gogh acerca de pintura e literatura também são endereçadas ao amigo Emile Bernard; especificamente a carta que ele escreveu numa quinta feira, em 19 de abril de 1888, revela:


Há tanta gente [...] que imagina que as palavras não significam nada – pelo contrário, a verdade é que dizer uma coisa bem é tão interessante e difícil quanto pintá-la. Há a arte das linhas e das cores, mas também existe a arte das palavras, e esta permanecerá.

Sim, a arte da palavra permanecerá. É nesta perspectiva, que o livro Impressões de leitura do texto literário reúne, na primeira parte, um conjunto de textos/relatos oriundos de aulas expositivo-dialogadas; leituras de textos teóricos e literários; seminários, debates, relatos de experiência, análise e produção de materiais didáticos, entre outras atividades vivenciadas nas disciplinas “Leitura do texto literário” e “Literatura infantil e Juvenil” ministradas por mim, no Mestrado Profissional em Letras (Profletras), na Universidade de Pernambuco (UPE), Campus Garanhuns. Para tanto, fez-se necessário manter o foco no Projeto “Literatura comparada: desafios e perspectivas na formação do leitor” que está vinculado ao Grupo de estudos comparados: literatura e interdisciplinaridade (Grupec/UPE).

A arte da palavra permanecerá, porque o leitor participante – quer seja no campo da oralidade ou da escrita, na cidade grande ou no interior – intui, desde sempre, “a poética que nos funda”, como diria Bartolomeu Campos de Queiros: um dos leitores mais sensíveis do mundo. Nessa direção, vejamos os relatos de Impressões de leitura do texto literário. No primeiro, temos “O mundo pelas lentes da literatura”, um texto tecido pelo desejo e “a profunda necessidade de esquecer por um instante todos os apuds, notas de roda pé, recuos à direita, número de páginas e datas”.

Foi este e continua sendo um dos objetivos aplicado nos exercícios de escrita e redobrada a problematização quanto às ementas, aos conteúdos programáticos e às referências das citadas disciplinas.  O nosso propósito é deixar a literatura falar por si mesma, mostrar a sua leveza.

No relato “Roda de lembranças” perpassam “imagens da nossa infância, adolescência e da experiência com a literatura”; as histórias e os poemas “n” vezes contados e narrados fazem parte do universo que sempre nos surpreende. No terceiro relato, um recado instigante chama a nossa atenção: “Se não ficar tão bom, é porque faltou”... É isto mesmo que acontece e que se intui desde cedo, porque o pão está caro e não cabe no poema, porque a liberdade, ainda que pequena, pode nos salvar dos dilúvios cotidianos.

Ora, ora, quem disse que dialogar está fora da validade? Nesses tempos de banalização, em meio aos incessantes toques de celular e das “músicas que enredavam corriqueiramente os caminhos de uma sociedade eleitoreira”, duas amigas relatam em “Diálogo literário”, de como “aprenderam a jogar o jogo do contente”. Apesar do tempo corrido, cabe “Um ‘dedim’ de prosa”, assim, como se diz no Nordeste. Nesse ritmo, dois educadores nordestinos pelejam em verso e prosa sobre “a missão de valorizar, de cultivar e divulgar [...] a riqueza da cultura popular da gente quase sempre desprovida de riquezas materiais [e que] não se deixa abater”.

Com o intuito de estabelecer uma possível relação entre o mundo real e a fantasia, o quinto relato – Os mundos encantadores da Literatura” – convida leitores e leitoras a “enxergar o mundo pela janela da imaginação, [considerando que uma] boa leitura tem o poder de nos fazer sentir acompanhados, mesmo quando estamos sozinhos”. O sétimo relato se transforma em “Confissões literárias”, como o próprio título sugere. Nessa perspectiva, as narradoras falam das inseguranças que, em geral, as pessoas sentem quando desafiadas a dar asas à imaginação na escrita subjetiva.

Mais um texto evoca a emoção da descoberta da leitura do mundo; trata-se de “O nascer do leitor”: um relato que envereda na história de uma “guardiã de tesouros feitos de palavras, que ensina a compreender o mundo e a si mesma, semeando sonhos e esperanças”. O nono relato – “De bicho entre os detritos a apanhador de desperdícios” – denuncia também as desigualdades sociais; é um soco no estômago porque o bicho-homem cata subsistência do lixão e como se não bastasse, o poeta traz uma provocação: “O que é bom para o lixo é bom para a poesia”.

O último relato – “O labirinto da vida: em busca de reexistir” – é fruto do convite que eu fiz à Dra. Jaciara Gomes (Vice Coordenadora do Profletras, Campus Garanhuns) para ela escrever um posfácio para este livro. Motivada com a repercussão do referido Projeto, Jaciara apresentou um texto que eu gostaria de ter escrito. Sem rodeios, inclui seu texto neste volume, pois a leitura literária – conforme ela sugere – ganha mais força, quando mergulhamos também na crítica escritura de Lúcio Cardoso, Milan Kundera e Octávio Paz, entre outros.

A segunda parte do livro traz um conjunto de comunicações apresentadas na Mesa redondaRepensando o lugar da literatura no Ensino Fundamental”, realizada em maio de 2014, junto ao Profletras, na UPE, Campus Garanhuns. A referida atividade foi apresentada em quatro momentos, a saber:
1º) Quando a literatura abre outras literaturas.
2º) Para não esquecer o direito à literatura.
3º) Do cotidiano literário: autor/texto/leitor.
4º) Espaços de leitura literária e mediação.

Para finalizar, cabe a liberdade de sublinhar um trecho da Apresentação que o Dr. Benedito Bezerra fez para este livro.  Não é atoa que ele questiona o que “muitos diziam” acerca do nosso Profletras:

...muitos diziam ser, de algum modo, menor. “Será que tem o mesmo valor do mestrado acadêmico? Será que poderei fazer o doutorado com o título de mestre do PROFLETRAS? Será apenas algum tipo de especialização melhorada, ou disfarçada?” Seria o mestrado profissional o burrinho pedrês entre os já provados e aprovados cavalos do mestrado acadêmico? Penso que o tempo e a experiência vivida com maestria por esta primeira turma foi o bastante para responder e esclarecer esses questionamentos.

E a propósito de livros e girassóis, convém reiterar que “é preciso aprender a ler, como é preciso aprender a ver e aprender a viver”, como disse Van Gogh.
Na minha intuição, cada parte deste livro parece uma semente, algo que alimenta; o conjunto sugere um girassol semeado em meio a diversidade; a sua leveza reside entre a memória afetiva e o desamparo do homem-bicho e outros maiores e menores abandonados que permeiam o texto literário. 


Nordeste do Brasil, novembro de 2015.

Graça Graúna
(Organizadora)




REFERÊNCIAS

BIBLIOTECA VILLA-LOBOS. Disponível em:  http://www.bvl.org.br/van-gogh-e-sua-paixao-por-livros/#prettyPhoto. Acesso em 21. Set. 2015.

QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de (Org.). Para querer bem - Manuel Bandeira. São Paulo: Global, 2013.


VAN GOGH, Vincent. Cartas a Théo. Porto Alegre: L&PM, 1999.

______. Carta a Emile Bernard. Disponível em: http://vangoghletters.org/vg/letters/let599/letter.html. Acesso em 21.set.2015.


sábado, 2 de janeiro de 2016

...e os livros indígenas...

Imagem extraída de: Biblioo.info

Janeiro
2

Do fogo ao fogo

Neste dia de 1492 caiu Granada, e com ela caiu a Espanha mulçumana inteira.
Vitória da Santa Inquisição: Granada havia sido o último reino espanhol onde as mesquitas, as igrejas e as sinagogas conseguiam ser boas vizinhas.
No mesmo ano começou a conquista da América, quando a América ainda era um mistério sem nome.
E nos anos seguintes, em fogueiras distantes, o mesmo fogo queimou os livros mulçumanos, os livros hebraicos e os livros indígenas.
O fogo era o destino das palavras que nasciam no Inferno.

(Eduardo Galeano. Os filhos dos dias.
Porto Alegre/RS: L&PM, 2014, p. 16.)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Reinventar


Imagem: GGraúna


A pena desliza
sobre o papel.
As palavras voam.

Planalto Central, DF. 
1º de janeiro
Graça Graúna