sexta-feira, 24 de abril de 2015

Vozes indígenas do Nordeste são eco e semente do canto da Terra



Vozes indígenas do Nordeste são eco e semente do canto da Terra



Graça Graúna
(Potiguara/RN)


Posso falar do meu jeito? Por onde devo começar? Escrever: por que, pra que, pra quem? Qual é o meu lugar nessa história? Estas perguntas não partem de um só individuo, embora esteja implícita nelas a primeira pessoa do singular.  Quando se trata de memórias vindas dos povos originários, a voz do texto é plural, é coletiva porque é do coletivo que brota a esperança da terra. Nesta perspectiva, o livro “Memórias indígenas do Nordeste” se complementa aos “Percursos cartográficos”. Somos um porque somos filhos da Terra.
Meu coração bateu forte com a chamada do vento metamorfoseado numa convocatória aos parentes indígenas do Nordeste para somar memórias, histórias, resistência... num só movimento. Porque somos um, intuímos que:

O Planeta está vivenciando uma nova grande virada e já não é mais possível ser separado... Para sobrevivermos temos que viver sendo parte da Natureza, temos que respirar junto com toda vida, compondo nosso organismo vivo, que o científicos chamam de Gaia e nós, aqui, de Mãe Terra. Na nova era não existe mais a divisão, não faz mais sentido falar de você separado de mim... Somos um. (GERLIC, em depoimento pessoal, 24.abr.2015).

Com esse espírito, a convocatória se transformou na vigésima terceira edição da coleção “Índios na visão dos índios”, da Ong Thydêwá.  Mais um livro coletivo e na sua largueza duplamente intitulado: “Memórias do movimento indígena do Nordeste” e “Percursos cartográficos”; lançado em meio as manifestações da Semana dos Povos Indígenas no Brasil, em 2015
Com a chamada do vento, o primeiro capítulo organizado por Gabriela Saraiva de Melo e Sebastián Gerlic reúne as memórias (em verso e em prosa) dos parentes Fulni-ô (PE), Kanindé (CE), Karapotó (AL), Kariri-Xocó (AL), Pankararu (PE), Pataxó (BA), Pataxó Hãhãhãe (BA), Payaya (BA), Potiguara (PB e RN), Quixelô (CE) e Tupinambá (BA). O segundo capítulo foi organizado por Laila T. Sandroni, Bruno Tarin e Jaborandy Tupinambá e trata dos percursos vivenciados também pelos Karapotó Plaki-ô, Kariri-Xocó, Pankararu, Pataxó de Barra Velha, Pataxó de Cumuruxatiba, Pataxó Hãhãhãe, Tupunambá e Xokó (SE).
Memória e percurso não se separam, tanto assim que peço licença para externar as emoções durante os lançamentos do nosso livro na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em 10 de abril e na Universidade de Pernambuco (UPE), Garanhuns, em 15 de abril. Na UERJ, o pequeno auditório ficou lotado; a Profª Rita de Cássia Miranda Diogo abriu as portas do Curso de Mestrado em Literatura Brasileira e nos ofereceu uma manhã recheada de curiosidades, conversa, poesia  e admiração à história e à cultura indígenas. O nosso livro foi lançado virtualmente, pois o Correios atrasaram na entrega; mas isto não invalidou o lançamento, considerando que a Thydêwá disponibilizou no site (www.thydewa.org/downloads) o nosso livro em download. Com efeito,  isto gerou na plateia o desejo de acessar o livro, gratuitamente. Na ocasião, o Prof. José Bessa apresentou uma calorosa apreciação  à nossa publicação e enfatizou a riqueza que é um trabalho coletivo dessa natureza. Alguns alunos não esconderam suas emoções ao relatarem o momento impar no contato com as memórias indígenas compartilhadas pelos próprios indígenas.
Na Upe, o lançamento contou com a doce presença  da parente guerreira Elisa Pankararu. A Profª Jaciara Josefa Gomes, Coordenadora de Letras, acolheu a presença de todos que surperlotaram o auditório. O lançamento contou com o apoio do Grupo de Estudos Comparados: literatura e interdisciplinaridade (Grupec) que organizou o evento. Elisa abordou sobre a educação nas aldeias e a sua trajetória no movimento indígena. Na ocasião, fiz leituras dos percursos cartográficos do Cacique Bá (Xokó), de Nhenety (Kariri-Xocó) e da memória dos Pataxó, de Reginaldo Kanindé, de Marleide Quixelô  e muitos outros parentes. À medida que Elisa e eu falamos, as imagens do nosso livro foram projetadas no telão. Houve perguntas sobre a lei 11645/08 e muitas demonstrações de afeto em torno da nossa cultura e história indígena. Uma curiosidade: no horário noturno, os alunos geralmente largam mais cedo; dessa vez foi diferente, pois  o tempo se estendeu com a plateia de estudantes e professores (de diferentes Cursos)  relatando também suas impressões em torno dos saberes indígenas e a beleza gráfica do nosso livro. 
 Confesso uma certa preocupação com o tempo que é tão curto para dar conta de tantos saberes indígenas e não indígenas e pelas tantas leituras do mundo que intuímos também do mestre Paulo Freire. Por outro lado, acolho com serenidade os sinais de esperança que brotam da terra em meio a luta de cada dia em que homens, mulheres, crianças, jovens, anciãos e anciãs indígenas enfrentamos ao longo do caminhar. Porque faz parte da luta a consciência pelo direito da terra, faço minha a leitura do mundo de Xahey Marlene Pataxó (BA): “Eles falam que nós índios somos preguiçosos e para que nós queremos terra, se nós não trabalhamos em cima dela? [...] queremos nossa terra para viver de nosso jeito, para criarmos os nossos filhos e netos, tataranetos, de nosso jeito” (p.22).  

“Memórias do movimento indígena do Nordeste” e  “Percursos cartográficos”: um livro coletivo contado, cantado, escrito, protagonizado por indígenas. Um livro que é fruto da consciência de que somos um na luta pelo reconhecimento, pela recuperação do território, pelo fortalecimento cultural, pela afirmação identitária, pelo respeito as diferenças.

terça-feira, 14 de abril de 2015

América Latina de luto: morreu o escritor Eduardo Galeano


Texto: KATHLEEN GOMES 

Em Abril de 2009, na primeira visita do recém-eleito Barack Obama à América Latina, o Presidente venezuelano Hugo Chávez ofereceu-lhe um livro, As Veias Abertas da América Latina. Era o primeiro encontro dos dois, não agendado: Chávez esperou o momento em que as câmaras fotografavam e filmavam os 13 líderes da Cimeira das Américas diplomaticamente sorridentes, levantou-se sem cerimónia, dirigiu-se até ao lugar de Obama, no topo da mesa, e presenteou-o com o livro.
O episódio está no YouTube: os dois apertam a mão, Obama olha para o livro, não muito seguro do que acabou de acontecer, e sorri. Questionado pelos jornalistas mais tarde, o Presidente americano foi anedótico: “Pensei que era um dos livros de Chávez. Estava a pensar dar-lhe um dos meus.”
Foi um acto desafiador do populista Hugo Chávez, sob a forma de cortesia. O livro oferecido é um libelo anti-colonialista, anti-capitalista e anti-americano que faz parte do cânone da literatura latino-americana dos últimos 40 anos. Chávez chamou-lhe, na altura, “um monumento na nossa história latino-americana”. Mas não era um dos seus livros. O autor? Eduardo Galeano.
O escritor uruguaio morreu na manhã desta segunda-feira, aos 74 anos, em Montevideu. Segundo o jornal El País, na sexta-feira Galeano tinha sido hospitalizado em resultado de complicações relacionadas com um cancro pulmonar, pelo qual já tinha recebido tratamento em 2007.
Galeano publicou As Veias Abertas da América Latina em 1971, quando tinha 31 anos. O livro, que foi publicado em Portugal em 1998 (ed. Dinossauro), é uma análise da história da América Latina, da colonização europeia à contemporaneidade, sob o ponto de vista da sua dominação e exploração por potências exteriores – europeias e norte-americanas. Nele, Galeano argumenta que os recursos que começaram por atrair os colonizadores europeus, como o ouro e o açúcar, conduziram a um sistema de exploração que persiste na actualidade e é responsável pela pobreza e pelo subdesenvolvimento na América Latina.
O livro converteu-se numa bíblia da esquerda latino-americana, tendo sido proibido no Uruguai, Argentina, Chile e Brasil nas décadas de 1970 e 1980, quando esses países eram governados por ditaduras militares apoiadas pelos Estados Unidos. Isso não impediu o livro de se tornar popular no continente. Especialista em História da América Latina, William Hamilton, da Universidade da Carolina do Norte, notou em 2009 ao Washington Times que “ler Galeano é um rito de passagem para qualquer jovem na América Latina, ano após ano.” “Durante as ditaduras militares dos anos 1970 e 80, os seus livros eram proibidos nas escolas mas eram bastante lidos. Amigos meus contaram-me que enterravam os seus exemplares no quintal para que as suas famílias não tivessem problemas com os militares.”
Por isso, há um ano, quando Galeano fez questão de se distanciar do seu próprio livro, afirmando publicamente que não seria capaz de reler a sua obra mais conhecida e celebrada, isso foi notícia. “Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é chatíssima. O meu físico não aguentaria. Seria internado nas urgências”, disse na Bienal do Livro de Brasília, citado pela imprensa brasileira. Descrevendo o livro como uma obra de juventude, disse que As Veias Abertas da América Latina pretendia ser um livro de economia política, só que ele não tinha a formação necessária. “Não estou arrependido de tê-lo escrito, mas foi uma etapa que, para mim, está superada.”
Questionado noutra ocasião sobre o facto de o Presidente venezuelano ter dado o seu livro a Obama, Galeano observou que Chávez “presenteou Obama com a melhor intenção do mundo, mas num idioma que Obama não conhece. Foi um gesto generoso, mas um pouco cruel.” O exemplar era espanhol.
Eduardo Galeano foi preso em 1973, quando um golpe militar tomou o poder no Uruguai. O escritor conseguiu fugir e exilar-se na Argentina, mas, em 1976, uma ditadura militar instalou-se naquele país e Galeano refugiou-se em Espanha, onde permaneceu até 1985. Nesse ano, a democracia regressou ao Uruguai e Galeano voltou a instalar-se na sua cidade-natal. Até morrer.
Além de As Veias da América Latina, em Portugal estão traduzidas as seguintes obras de Galeano: De Pernas para o Ar(Caminho), Futebol: Sol e Sombra (Livros de Areia), História da Ressurreição do Papagaio (livro infantil, com ilustrações, publicado pela Kalandraka) e Memória do Fogo (Livros de Areia).


domingo, 5 de abril de 2015

Tear da palavra



Na urdidura do tempo
o ser
a poesia:
água que eu bebo
chão que eu me deito
ar que respiro.

Poesia de pedra
e sal
de peixe
e terra
de vinho
e pão
entrecho
trama.

De fio a pavio
a urdidura a vida.


Graça Graúna. Tear da palavra. Belo Horizonte: Coleção M.E 18, 2007, p. 13.