terça-feira, 3 de setembro de 2013

Guarani, Kaiowá e muitas mais - literatura de índio



 XVI BIENAL DO LIVRO RIO
Dia 3.set.2013, Café Literário

Tema:
Guarani, Kaiowá e muitas mais – literatura de índio.

Palestrante:
Graça Graúna
(povo Potiguara/RN)

O tema deste Café Literário sugere que há muito mais literatura de autoria indígena do que supõe o senso comum.
Pensando nas muitas histórias que os parentes indígenas (de diferentes etnias) têm para contar, a intuição me diz que a memória e a poesia revelam que as utopias não se perderam. Nos caminhos da Ameríndia as utopias se realizam toda vez que as pessoas se unem para superar as barreiras a que são submetidas pelo capital e pela arquitetura do preconceito.
O fato de estarmos aqui nos permite afirmar que não perdemos nossa identidade, nossa memória, ainda que o nosso jeito de ser e de viver cause estranhamento  às pessoas da cidade grande. A identidade e a memória (à semelhança do amor) dão sentido a nossa existência.
Há mais literatura de autoria indígena do que supõe a vã filosofia. Este fato nos permite apresentar (embora resumidamente) um exemplo da força que tem a memória ancestral no cotidiano das mulheres indígenas em várias partes do mundo. Vejamos o pensamento de Nicolasa Quintreman, uma liderança entre o povo Mapuche, no Chile (Cf. PORANTIM apud GRAÚNA, 2013, p. 36):

Não me interessa o dinheiro, nem uma casa com cozinha. Tenho o meu lugar, meu fogão e minha terra para trabalhar. Tampouco quero a luz que me oferecem, para isso tenho o sol... com isso estou bem. [...] a barragem não melhora a qualidade de vida, como disse o presidente. Tirar uma pessoa como se fosse um animal para um lugar que não lhe serve, que não conhece, isso não é qualidade de vida. Viver bem é permanecer na mesma casa onde eu nasci. A terra nos pertence, temos que cuidar dela, da mesma forma que a madeira, o rio e o capim que os porquinhos, as ovelhas e os cabritos comem. [...] não vou amolecer, [...] meu futuro será sempre o mesmo, não vou muda-lo. Morrerei na minha terra.  
  
Outro exemplo edificante vem da poesia Mapuche escrita por Rayen Kvyeh. Em seus versos, ela nos convida a romper o silêncio, a lutar pelos nossos direitos; sua poesia nos encoraja a contar a nossa autohistória. Vejamos um fragmento:

rompe o silêncio
da memória milenar
do povo mapuche
neste relato
da história, gravada
nos espíritos
de nosso povo

A sabedoria ancestral é vida que corre pelas gerações, afirma o crítico português Salvato Trigo (apud GRAÚNA, 2013, p. 113). Dentro desta perspectiva, a poesia de Rayen Kvyeh fala dos sonhos, onde os ancestrais (seus avós) aconselham desde sempre a lutar pela liberdade, a lutar pela terra. Vejamos mais um treco dessa poesia (Cf. GRAÚNA, p. 113):

nos meus sonhos
meus avós têm falado.
Da cordilheira ao mar
de norte a sul,
desde o mais profundo
da nossa mãe terra
suas vozes aconselham
que expulsemos
os usurpadores
da nossa terra.
Os usurpadores
da nossa liberdade.

Em várias partes do mundo há milhares de povos indígenas que expressam seu amor à terra, seu desejo permanente de justiça e liberdade, seja por meio da contação de histórias, da poesia, da arte plumária, do grafismo, do barro ou dos sonhos que trazem as canções da mata e do amor à natureza; pois como diria Ana da Luz Fortes do Nascimento (uma anciã Kaingang): somos a raiz da esperança, a multiplicação da luta à semelhança da terra que multiplica o cereal plantado.

Graça Graúna
Rio de Janeiro, 3.set. 2013

GRAÚNA, Graça. Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2013.

Nenhum comentário: