sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Dos sonhos, rios e pedras na Pinacoteca


Caminhando calmamente por uma rua arborizada da cidade, avistei um prédio branco, baixo e bem amplo. Na entrada, a escadaria e as portas bem largas dão sinais que a informação está correta; não tem errada, do outro lado dá até pra ver a Cidade da Criança.  Seguindo o mapa, entrei na Pinacoteca de São Bernardo do Campo para cumprir mais um ritual que eu faço sempre quando tenho a oportunidade de conhecer uma cidade pela vez primeira: visitar igrejas, museus, livrarias, brechós, cafés, cinemas, feira, praças, algumas aldeias e o que mais a geografia e o senhor tempo permitir. 

Imagem extraída do Google

O cenário externo da Pinacoteca traz um pequeno jardim de esculturas que se transforma em convite para os curiosos e os amantes das artes se aproximarem sem medo e, devgarosamente, se deixarem levar pelo encantamento que a arte pode provocar; ainda que esse encantamento venha mesclado de susto diante de uma série de realidades que os menos avisados não suportam ver.
Tão logo entrei no hall do prédio, um funcionário atencioso me acompanhou pela escadaria interna que leva ao piso superior e de repente fui agraciada pela memória das águas na exposição “Rio acima rio abaixo”, da artista plástica Beta. Entre as pedras brancas dos rios e a cor de barro de outras pedras arrumadas num pote uma escultura simboliza, talvez, a mãe da cachoeira ou a guardiã do caminho das águas, das conchas e escamas do universo aquático de que somos feitos, de onde viemos. Penso que a arte de Beta em “Rio acima rio abaixo” traz um recado que devemos intuir a propósito do grande acontecimento que é/será Rio+20; por isso mesmo nunca é demais abraçar a ideia de que somos uma pequena gota de água que faz parte de um rio que luta para sobreviver.
Pelo direito de sonhar, o artista plástico Ricardo Amadasi - com a exposição “A estrutura e o sonho” - nos aproxima de uma realidade que se entrelaça ao desejo de paz simbolizada também, nos pássaros que distendem suas asas em muitas de suas gravuras, a exemplo da pomba que vela o sono de crianças abandonadas num banco de praça; talvez seja a mesma pomba que ao lado de uma criança provoca a unidade na pintura intitulada “Somos o que somos juntos” e que também parece acompanhar os volteios de um balão na gravura “Balão vermelho”.
Mas nem tudo é tão pacífico na obra de Amadasi, tanto assim que ao sair da exposição gravei na memória a imagem de uma família com fome; tem gente com fome, como denuncia a poesia de Solano Trindade – poeta pernambucano do bairro de São José dos arrecifes e que foi adotado pela cidade de Embu das Artes/SP. Tem gente com fome
Amadasi: “Jantar em família”. Imagem extraída do Google

A escultura intitulada “jantar em família” trouxe a minha memória o poema “Bicho”, do pernambucano Manoel Bandeira; nesse poema ele revela o quanto homens e bichos parecem tão semelhantes – em meio ao lixo – lutando pela sobrevivência.
Para encerrar a minha visita à Pinacoteca de São Bernardo do Campo, fui conduzida ao ateliê de litografia colaborativa pelo imaginário vindo do grafismo quase rupestre que eu avistei desde a entrada do corredor, no térreo da Pinacoteca. O responsável por esse imaginário é o mestre alemão de litografia – Roberto Gyarfi, isto é, um dos mais preparados experientes impressores litográficos do Brasil. 
 
Imagem extraída do Google

Enquanto eu apreciava a pequena sala decorada pelo trabalho artístico dos seus alunos, ele falava dos sentidos da “Educação pela pedra” – titulo do seu curso de litografia. Tomei a liberdade de dizer ao mestre Roberto Gyarfi que a ideia de educação pela pedra me leva a João Cabral, outro poeta pernambucano. Ele sorriu e concordou comigo e foi explanando a sua paixão pela arte de “escrever na pedra”, como faziam os antigos.
É isto o que eu tenho a dizer ao me despedir de São Bernardo do Campo. Levo comigo a memória, a imagem/palavra de uma cidade que desliza com arte a história dos trabalhadores sobre o papel e neste percurso escrevo um pedacinho da luta que também é minha.

São Bernardo do Campo, início do verão, 2011
Graça Graúna


Para saber mais:
Período da Exposição “A estrutura e o sonho” e “Rio acima Rio abaixo”: 26/11/2011 31/1/2012
A Pinacoteca fica na Rua Kara, 105, Jardim do Mar. O horário de visita é de terça-feira a sábado, das 9h às 17h. Entrada gratuita. Mais informações pelo telefone: (11) 4125-4056.

8 comentários:

Lais Castro disse...

Através dos seus olhos, visitei a Pinacoteca de São Bernardo. Gostei.
Abraço,
Lais.

Graça Graúna disse...

Querida Lais: grata pela visita e sobretudo pela leitura carinhosa sobre aminha visita a Pincoteca. Fico por aqui senão vou chorar. Feliz Naltal.

Ademario Ribeiro disse...

G querida G, tua escrita aqui, mais uma vez, sensível e de percepção atenta em meio a construção de um ser sozinho na “terra da garoa” – e a solidão do ser é algo de tal tamanho que só a arte e o sonho são capazes de dimensionar - e você, generosa não recolhe só para si tudo o que entra da sua sensibilidade e senso crítico e estético e nos brinda com os formatos, cores, temas e geografias das águas, das pedras e dos rios...

Tua devoção ao Sagrado e à Terra, tua conexão apaixonada à causa da família - formam em mim, que tanto te admira, uma pinacoteca na qual mais uma vez compreendo a tua grandeza, humildade e essencialidade num mundo cada vez mais invidualista, frio, barulhento, capitalista e você é capaz ainda de se encantar e de nos educa sobre literatura (poesia), artes plásticas, memória e seus legados numa construção “imagem/palavra de uma cidade...” e transmutada nos autores das obras vistas abre as páginas de tua alma e doa um pedaço de bom tamanho da tua luta em nome do Amor e do Trabalho de que faz arte inda que esta não chegue com a força em outras cidades!

À você mana, com amor!

Ateliê de Litografia Colaborativa disse...

Graça,
Nós do Ateliê de Litografia Colaborativa agradecemos a sua visita e a generosa transfiguração da experiência em texto.Ficamos felizes pela "impressão" que levas deste espaço e destas pessoas e destas imagens. O que buscamos dentro do conceito de colaboratividade é ampliar experiências e possibilidades dentro dos âmbitos do criar. Creio que não haja criar sem crença e não há crença sem asa.

Gratos todos pela graça presença da asa graúna.

Graça Graúna disse...

Ademario, querido: tuas palavras são umacalanto pra gente se erguer em meio à barbarie em que vivemos. Grata pela constante presença neste pequeno blog. Que Ñanderu nos acolha.
Grauna

Graça Graúna disse...

Amigos(as) da Pinacoteca: agradecida sempre ficarei pela atenção e carinho que recebi de todos(as) neste espaço maravilhoso. Para completar meu encantamento não deixei também de agradecer ao espírito quixotesco que me parece o guardião desta linda Pinacoteca.
Que Ñanderu nos acolha,
Graça Graúna

PS: Ñanderu, em guarani, signifca Deus/Pai, o criador.

Ana Inês disse...

Mainha, como sempre, é bom ouvir tantas histórias de tuas andanças. Embora longe, sempre com vontade de estar perto. Espero acompanhar teus passos também nesta coragem de todo dia...lindas lembranças, grandes caminhadas

Graça Graúna disse...

Oi, Ana, grata pela leitura, atenção e carinho. Nessa minha visita à Pinacoteca, pensei muito em Cao, Iris e Davi; pois sei o quanto els gostam de mexer com papel e tinta. Bjos e bençãos, Mainha