sexta-feira, 26 de março de 2010

quarta-feira, 24 de março de 2010

A caminho do Haiti tem uma pedra(*)


tem uma jangada de pedra
a caminho do Haiti
a esperança se avizinha
pois navegar é preciso
ou como diz o velho Mago
uma obrigação todos temos.
E agora, que fazer?
A caminho tem uma pedra
e uma jangada se recria
pois não há mais tempo a perder


Graça Graúna, Nordeste do Brasil, 24.março.2010

(*) fiz este poema, pensando também em Carlos Drummond de Andrade, autor do poema “No meio do caminho”. Empreguei o termo Mago para homenagear SaraMAGO e a sua solidariedade ao povo do Haiti.

Nota: a Fundação José Saramago lançou uma edição especial do livro “Jangada de pedra” (editado originalmente, em 1986) com o intuito de ajudar as vitimas do Haiti. O produto da venda do livro é destinado integralmente as vitimas, por intermédio do Fundo de Emergência da Cruz Vermelha. Para saber mais da Campanha “Uma jangada de pedra a caminho do Haiti”, visite a Fundação José Saramago e assista também ao vídeo (neste blog) em que o próprio Saramago junto a outros escritores da língua portuguesa fazem da literatura um gesto concreto em prol das vítimas do terremoto.

***

Nota: poema diponível também no Overmundo.

domingo, 21 de março de 2010

À deriva

Barcos. Ana Cotta, Flickr

miro a tua ausência
no labirinto de espelhos quebrados
no quarto que era meu e teu
diviso o clarão da lua
e na janela teu olhar
perdido no perdido
entre as grades dos prédios
ninguém vê
estou à deriva


Graça Graúna
Nordeste do Brasil, dia da poesia, 2010.

Nota: poema disponível também no Overmundo

quinta-feira, 11 de março de 2010

Tocar o mundo*

Imagem: Fernando Stanknus, no Flickr

Estar no mundo
Não é favor
É louvor.

Raças, etnias se fizeram uma...
No Brasil
Se fizeram ânima.

E as brumas se desfizeram
Numa única pena da graúna
No ribombar da vida esperança
Essa ave augura a recriação humana
Brasileiríssima graúna.

Seu solopio por sobre grotas e veredas
Metafórica imagem de liberdade.
Sinaliza o último lugar de sonhos
Pois lá na plácida alvorada
Das promessas descalçadas de esperança
Não permite
Alva lembrança.
Única vontade de por fim ao desengano
Dos desenganados.

Só uma certeza resta.
Na fresta.
O sonhar, o espanto.
O solopio da graúna
Que teima.
Que levanta.
Um desabafo desafio
Tocar o mundo “com a justa ira dos traídos”.

(*)poema de Josuado Meneses

Nota 1: Eu, Graça Graúna, gostaria de compartilhar o poema "Tocar o mundo"; um presente que ganhei de Josualdo Meneses: poetamigo, professor de História na UPE. Ele aprendeu com Paulo Freire a não esconder o desejo de um mundo mais justo, um mundo melhor.
Nota 2: solopio é um neologismo do poeta Josualdo.
Nota 3 - poema disponível também no Overmundo.

domingo, 7 de março de 2010

Sobre o “deserto dos pássaros úmidos”

Imagem: JGNeres

Geraldo Neres é um nome que eu conheço há algum tempo, mais precisamente em 2003, desde a época de Palavreiros; um movimento que surgiu em São Paulo e que reuniu muitos e muitos simpatizantes da literatura. Desde então, tem sido para mim um prazer acompanhar a sua trajetória no mundo da palavra; a sua aventura demasiado humana que nos revela os silêncios que quase desconhecemos, mas que habitam em cada um de nós. Neres é detentor de muitos prêmios, entre eles: o Prêmio Cultural Plínio Marcos – Mostra de Arte de Diadema, em 2004. Autor de “Pássaros de papel” e de outros livros em que a poesia confirma o seu estar no mundo.

Quero falar de Outros silêncios – um livro publicado em 2008, junto ao Ministério da Cultura e do Programa de Ação Cultural (PROAC), da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. A capa é de Floriano Martins e nos sugere, na primeira leitura, que devemos estar atentos, sempre, ao verbo que se faz silêncio e da sua ebulição em nós. Sim, o verbo se faz silêncio e dentro dele podemos intuir tudo, até o canto seco de uma multidão de pássaros úmidos; podemos intuir tudo: a vertigem, as desigualdades sociais, a explosão do silêncio que se renova no exercício de ser um eterno insatisfeito que é o ser poeta.

Em Outros silêncios, outras vozes se encontram e sugerem que é tempo ainda de não desperdiçar o jeito de ser do outro; o silêncio nos alerta da necessidade de andar de mãos dadas e nos convida a olhar o outro e seus desertos. Em Neres, o silêncio emerge e se apresenta na vida nua e crua que se vive, no tempo que navega além do rio; na memória das águas que expõe nossos fantasmas na figura do “homem oco e seus relógios”; na dor de pássaros afogados no portal do tempo, como sugere o “cortejo de punhais / sol afogado no peso e na dor dos pássaros [...] no sangue do rio” e/ou das asas que também criam raízes no aprendizado das horas.

Ler Geraldo Neres é também uma maneira de intuir o ritmo do silêncio das noites chuvosas; uma leitura que nos convida a fazer parte da metamorfose como quer o “movimento enroscado no deserto dos pássaros úmidos”. Nesse ritmo, a leitura nos convida a não temer a nudez que se desenha do silêncio, da palavra; um convite aos homens e às mulheres do mundo, a todas as pessoas que ainda arrecadam um pouco do tempo para perceber o sentido da palavra aquática como quer o dilúvio dos olhos neste sagrado encontro com a literatura.

Graça Graúna
Nordeste do Brasil, 7 de março de 2010

Nota: texto disponível no Overmundo