sábado, 19 de dezembro de 2009

...sobre um “canto peregrino e mestizo”

Ilustração: indios kadiweu
Capa: Agnes Pires

Nada de novo e tudo de novo. No baú de lembranças, reencontro as boas palavras escritas em 2001 por um amigo, acerca de "Canto Mestizo" - meu primeiro livro de poemas. Trata-se das impressões do professor e amigo Antonio Viana que, agora, compartilha o andar de cima com Manuel Bandeira e Irene preta, com Drummond e Cecília Meireles e outros que se foram; mas que deixaram o brilho de sua simplicidade, sensibilidade e sabedoria.
Confesso que senti uma grande vontade de comemorar os 10 anos de “Canto mestizo”, isto é, meu filho de papel e tinta publicado em 1999, pela Editora Blocos, com o prefácio de Leila Miccolis, poetamiga. Pensei em reunir os amigos, ouvir musica, falar de literatura.... enfim, reconhecer que estamos sobrevivendo e que há dez anos me vesti de coragem para mostrar timidamente meu canto atravessado de blues e sol. Pensei em fazer tanta coisa, mas não deu. Contudo, só o fato de estar aqui para compartilhar o desejo de rever os amigos e falar de poesia já é uma conquista, porque a poesia é parte de tudo aquilo que me move. A poesia é possível, não acaba nunca. Enquanto houver poesia, há vida; há esperança. Basta não desistir.
Assim, sem mais delongas, tomo a liberdade de convidar a todos(as) para celebrar a palavra à luz do pensamento vivo de Antonio Viana.


Graça Graúna, Nordeste do Brasil, 18 de dezembro de 2009


Impressões sobre um “canto peregrino e mestizo”

Tentarei expressar nestas palavras minha surpresa e meu encanto ao descobrir a poesia de Graça Graúna no seu Canto Mestizo, apresentado em duas partes: na primeira vemos a autora mostrando-se como um haijin (poeta de haicai), unindo simplicidade, sensibilidade e sabedoria, em poemetos concisos, em três versos, como o faziam os antigos haicaístas. Fiel à estética e aos princípios desta forma poética, a autora cristaliza a instantaneidade do momento, a transitoriedade do sentimento, assim como a fugacidade do tempo através de imagens do dia, palavras, cores e sons do cotidiano, da maneira mais simples possível, como deve realmente ser um belo e autentico haicai. Aqui captamos toda a emoção, a sensação e o sentimento da poetisa apresentados como uma espécie de convite a um diálogo e encontro maior com a sua poesia.
Na segunda parte do livro, Graça, não como uma cotovia, mas como a própria Graúna, nos leva em suas asas, a revisitar espaços poéticos: Recife, Pasárgada, Lisboa, entre outros, na companhia de escritores e artistas de todos os tempos. O “Inventário amoroso” que inicia esta parte, abre-nos as portas ao universo poético-intertextual; partindo de Cervantes passamos por Hesse, Rilke, Neruda, Eliot, Borges, Bandeira, Ascenso, Pessoa, Régio, Mário, Quintana e outros mais.
Uma discreta e sentida homenagem é feita a autores-cantores que com o seu canto e a força de suas mensagens marcaram com uma gota de desespero toda uma geração: Janis Joplin, Victor Jara, Violeta Parra.
A temática do Canto Mestizo desdobra-se em várias direções; o descobrimento dos “brasis” e o destino incerto do nosso povo: o índio, o negro e o próprio mestiço, no dizer da autora “crias de um homem submerso”. Podemos ainda descobrir os mares literários por onde navega Graça Graúna, através das evocações, alusões e citações dos seus mitos poéticos e por fim penetramos num mundo pessoal, povoado de mágoas, desencontros, “esperanças pardas”, incerteza, ânsias, mas também de “riquezas infinitas”; mundo este que nos faz lembrar a poética ferida de Florbela Espanca.
O azul que colore os poemas de Graça assemelha-se ao azul que corre dos dedos de Cecília e “colore as areias desertas”, ao “azul ausente” de Carlos Pena Filho, tentando aprisionar na cor as coisas que lhe são gratas. Graúna pousa sua tristeza no azul quase preto, cor da ausência das cores, ausência de tudo. E parafraseando a autora no poema “Gênesis”, aqui termino afirmando:
Faça-se eco este “canto mestizo”!

Antonio Viana, Recife, 2001.


Nota: texto publicado no Overmundo

7 comentários:

José Carlos Brandão disse...

Parabéns, Graça.
A graúna voou, voou,
veio poousar nos meus olhos
e toda em festa cantou.

"O azul é a cor da carne de Deus", eu escrvi num poema, que lembro aqui para desejar que o seu livro continue voando no azul de Deus.

Um beijo.

GRAÇA GRAÚNA disse...

Meu querido mestre Brandão: me recordo de vários momentos em que procurei escrever pra gente grande, pensando que assim eu me aproximaria mais de Deus. Insatisfeita, quis que Deus me ouvisse mais e resolvi burilar as palavras em Criaturas de Ñanderu - meu primeiro livro para crianças.E por incrível que pareça, quase toda paisagem do livro é azul; na capa pousa um pássaro azul. Será que Deus me ouve?

IVANCEZAR disse...

Grainha:

Um texto com a tua "marca registrada"
Depois de dias com o Blog fora do ar, passo para deixar-te um FELIZ ANO NOVO !
E porque não um feliz Natal como retardatário ...
Beijo

GRAÇA GRAÚNA disse...

Meu querido Ivan: andei sentindo a sua falta e coincidente dei falta do seu blog. Ainda bem que você está no ar. Seja sempre bem-vindo. Grata pela leitura e votos de Feliz 2010. Bjos.Grauninha

Márcia Sanchez Luz disse...

Grauninha, ave linda que voa em busca da liberdade e da esperança...
Você fez e faz ecoar cada vez mais longe e alto seu "Canto Mestizo"!
Meu carinho e imensa emoção ao ler Antonio Viana falando de você e seu azul que nunca tem fim.
Sim, Deus certamente te ouve, querida!
Um beijo carinhoso e saudoso,
Márcia

GRAÇA GRAÚNA disse...

Minha querida Marcia: você não imagina o tanto de alegria que me faz em compartilhar os dez aninhos do meu Canto Mestizo. Fala pra Leila que enviei o texto do Viana pra ela, mas o texto voltou. Gostaria que ela soubesse. Afinal, o Canto Mmestizo existe porque ela apostou em mim. Bjos, paz e bem,
Grauninha

Rominho disse...

oi Graça, to chegando por aqui. Acho que vou gostar muito de seu canto mestiço. É possível encontrá-lo ou encomendá-lo. Mande notícias.