terça-feira, 29 de janeiro de 2008

A propósito da moça com o livro

Moça com o livro. Reprodução do Jornal Folha de São Paulo,
em homenagem aos 60 anos do MASP.


Na semana dos 456 anos da cidade de São Paulo, a Folha de São Paulo publicou alguns encartes com reproduções (em papel couchê) de obras que fazem parte do acervo do Museu de Arte de São Paulo (MASP), tais como: o Pobre pescador, de Paul Gaugin; A canoa sobre o Epte, de Claude Monet; A bailarina vista dos bastidores, de Toulouse-Lautrec; O escolar, de Vicent Van Gogh; Rosa e Azul (as gêmeas), de Pierre-Auguste Renoir; Quatro bailarinas em cena, de Edgar Degas; Rochedos em L’Estaque, de Paul Cézanne e Moça com o livro, do brasileiro Almeida Junior.

Um presente e tanto! Uma das reproduções chamou a minha atenção, mais pelo conteúdo; ainda que, na forma, o seu autor não seja considerado moderno. Segundo os estudiosos do assunto, Almeida Junior (1850-1899) desenvolveu a arte de pintar mulheres e livros, destacando também os cabelos curtos das suas personagens; “o que até então no Brasil, eram práticas de estrangeiras ou prostitutas [...] E, mesmo assim, ao retratar a ‘Moça com o livro’ ao ar livre, o artista se aproxima da prática impressionista que ocorria em Paris, no fim do século 19”, como sugere o texto do encarte da Folha de São Paulo (2008).

Passei um bom tempo contemplando a arte de Almeida Junior e fico me perguntando sobre o tempo que se leva para se reconhecer fazendo parte de um universo em que o ato de ler se confunde com amar e viver; crescer e provavelmente morrer de esperar; mergulhar ou abrir novos caminhos como quer a sensualidade do olhar, da boca pintada e da blusa branca decotada que se confunde com as páginas brancas ou escandalosas do livro; assim, como sugere a estreita relação entre a mulher e a literatura na pintura desse paulistano de Itu. Ao estabelecer também o confronto e as relações entre o ser e a leitura, esse artista revela ao mundo sua percepção em torno da condição feminina, para não esquecermos que até 1838 as mulheres eram proibidas de ler e para tanto, elas precisavam de autorização.

A propósito da mulher-leitora na pintura impressionista de Almeida Junior, reitero minhas impressões acerca da condição feminina em um depoimento meu no livro Retratos (antologia poética organizada por Elizabeth Siqueira e Laura Areias), onde relato que somos um feixe de acontecimentos. Desse modo, saudando a moça com o livro,

saúdo as minhas irmãs
de suor papel e tinta
fiandeiras
tecelãs
retratos que sonhamos
retratos que plantamos
no tempo em que a nossa voz era só silêncio


Graça Graúna, Nordeste do Brasil, 30 de janeiro de 2008

domingo, 27 de janeiro de 2008

Literatura escrita por mulheres em Pernambuco

O cenário das Letras em Pernambuco conta com a realização de mais um projeto literário (poesia, conto e crônica) organizado por Elizabeth Siqueira (escritora mineira) e por Laura Areias (escritora portuguesa). No primeiro volume (intitulado Retratos) participei com poemas; no terceiro volume (intitulado Vozes: a crônica feminina contemporânea em Pernambuco) apresento a crônica “Memórias do cerrado” que está disponível neste blog, desde outrubro de 2007.

Do volume de Crônicas participam 50 escritoras: Alaide Correia Lima, Ana arraes, Ana Maria César, Ariadne Quintella, Cicí Araújo, Claudia Azambuja, Djanira Silva, Dulcita Brenand, Edna Alcântara, Eleonora Castelar, Elizabeth Antão, Esmeralda Moura, Ester lemos, Eugênia Menezes, Fátima Quintas, Graça Graúna, Graça Melo, Ina melo, Isnar Moura, Laura Areias, Lourdes Nicácio, Lourdes Sarmento, Lúcia Cardoso, Luciene Freitas, Luzilá Gonçalves, Luzinete Laporte, Marcia Basto, Margarida Cantarelli, Maria de Lourdes Hortas, Maria Lúcia Chiappeta, Maria Pereira, Marilena de Castro, Marly Mota, Maryse Cozzi, Nazareht Gouveia, Nelly Carvalho, Neuma Costa, Rejane Gonçalves, Renata Pimentel, Rosa Guerra, Salete Rego Barros, Selma Vasconcelos, Silvana Oriá, Suzette Abreu e Lima, Telma Brilhante, Tereza Halliday, Vera Sato, Virgínia Crisóstomo, Zuyla Cartaxo e Elizabeth Siqueira.
Na apresentação da obra, o escritor Flavio Chaves (Diretor Presidente da Companhia Editora de Pernambuco) observa que "Pernambuco é, de fato, um celeiro de boas profissionais liberais, de operárias, artesãs, artistas plásticas, poetas, cronistas, escritoras, todas elas, porém, não se descuram jamais, do seu papel de guardiãs da família, a sentinela avançada da unidade brasileira" (p.8). Para Lourdes Sarmento, responsável pelo prefácio da referida obra, "as cronistas que participam desta Antologia tendem para relatos memoralistas. Quer seja de acontecimentos das suas cidades de origem, das ruas que marcaram as brincadeiras da infância, os sonhos e descobertas na fase da adolescência ou da idade adulta" (p.12).
Para adquirir essa antologia escrevam para as organizadoras no seguinte endereço: cepecom@cepe.com.br

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Para não esquecer

Todo dia é dia mundial de luta contra a AIDS.
Vale a pena ver este spot
e repassar para os amigos.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

"Nos vãos da poesia"

Fotografia: Graça Graúna


2008 – nada de novo e tudo de novo. Por isso, torno a dizer que eu sou apenas uma aprendiz e enquanto eu estiver nesse mundo, sempre quixotesca, quero fazer como fez Quintana: cavar o infinito, a poesia do mundo ou sair de mãos dadas como quer a poesia drummondiana. Também careço, preciso evocar a estrela de Bandeira e, pela vida inteira, burilar outras canções do beco; compor um acalanto para Jonh Lenon ou simplesmente para Seu João que sobrevive vendendo limão na feira ou quem sabe até fazer uma canção para os pequenos anjos carvoeiros das tardes e para outras crianças que desde cedo aprendem a conhecer sua raiz pernambucana.


Neste instante, em nome das coisas simples dou-me a liberdade de fazer uso da poética de Bandeira: “_ Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples”, ele dizia. Coisa simples, assim, ora doce e amarga que perpassa o olhar daquela mulher invisível tombada entre os detritos da Avenida Conde da Boa Vista, no centro de Recife, como se vê e se sente na força da palavra do poeta Walter Ramos Arruda. Deste mesmo poeta dou conta do açude-assu em seu afago ao meu “Canto Mestizo”; ocorre que em 2007, ele escreveu para mim os versos seguintes que eu guardei como se fora um símbolo de proteção para saudar o ano novo. Por meio do senso poético desse viandante desejo a todos(as) a inquietação necessária para expressar os contrapontos do cotidiano. Desse modo:

Agravo agrado em segredo.
Acuso meu segundo canto,
íntimo como o galo último
avisa à manhã sobre o dia.
Afago nos vãos da poesia
os vôos longos da Graúna.
Plano com as asas já lusas
sobre a água - açude-assu
atento um instinto mestiço,
do caminho até Ivy Marãey.

2008 – Recife continua “a possuir o segredo grande da noite”; pelo menos é o que intuí do testamento poético de Bandeira e da poesia em movimento que perpassa também as conversas que eu tenho com o poeta Cyl Galindo.

Lugar e memória. Passagem, paisagem plural. Ora Recifeliz no alumbramento de uma terça-feira gorda, ora Recifeinfeliz, que mostra também a sua fome numa quarta-feira de cinzas; resífiles de anjos caídos sob os viadutos segredando lágrimas do nascer ao morrer do dia; anjos ora doces e amargos(as); uma multidão de bicho-homem, bicho-mulher, bicho-criança que forma uma constelação de estrelas-cadentes-pedintes a quem dedico este quase-improvisado prólogo no meu livro de crônicas "Lugar e memória"; um título que, na concepção do poeta Antonio Mariano (PB), parece menos comum. Que assim seja, para esquentar os tambores e os maracás; que em 2008 a poesia continue se perguntando: “Tu tás aonde?” na viva voz de Miró, e que revele-se redondamente movida pela esperança de um mundo melhor; ano do Planeta Terra.

Nordeste do Brasil, 10 de janeiro de 2008
Graça Graúna