sexta-feira, 3 de outubro de 2008

A imprensa não vê

Foto: Graça Graúna. Tsurus - tema de um dos muitos cartazes espalhados pela Feira Pan-Amazonica do Livro, que homenageou os 100 anos da imigração japonesa



Nunca é demais refletir acerca da exclusão que há mais de 500 anos sofrem os nossos parentes indígenas. Recentemente estive participando de uma mesa-redonda sobre Literatura Indígena, na XII Feira Pan-Amazônica do Livro, em Belém-Pará. Confesso que fiquei maravilhada com o vai e vem constante de pessoas curiosas em torno do universo do livro. Da mesa participaram o Daniel Munduruku, o Yaguarê Yamã e eu - Graça Graúna - como mediadora. É certo que fomos bem acolhidos pela organização do evento; estivemos em um hotel muito chic, tivemos transporte. No Hotel, tivemos contato maravilhoso, ainda que relâmpago, com outros escritores: Ariano Suassuna, Marina Colassanti, Afonso Romano de Santana, Rubem Alves....Até aí, tudo bem....mas nos cinco dias da Feira de Livros quase nada foi mencionado na mídia a nosso respeito. Pra não dizer que não falaram de flores, apenas copiaram a programação geral do evento e com muito esforço, com uma lupa, seria possível ver o tema da nossa mesa-redonda que tratou da oralidade e da escrita no universo da cultura indígena. Os nossos nomes sequer aparecerem. O Yaguarê, o Daniel e eu entendemos, logicamente, o recado; fomos convidados sim, fomos bem tratados sim, mas não tivemos voz o suficiente para marcar a nossa presença no planeta do livro pan-amazônico. A platéia de professores e estudantes que nos prestigiou foi a nossa força também naquele dia em que os jornais estampavam mais as "socialaites" e por que haveriam de estampar a imagens de três escritores indígenas? Apesar de tudo, deixamos nossos recados. Tivemos um encontro com os pesquisadores mirins no Museu Goeldi; visitamos outros museus, como brasileiros também que somos zelosos da nossa história. Ainda deu tempo de conhecer uma bela família Munduruku que nos recebeu a todos com grande alegria. Caminhamos em Belém....passeamos peloVer-o-Peso, admiramos nossos irmãozinhos urubus aos montes, lá nas docas; sentimos o cheirnho gostoso do Pará e o levamos impregnado em nossa roupa, em nossa pele, no nosso espírito. Ora...também nos reconhecemos em meio a tantos irmãos e irmãs excluídos(as) e nos damos conta que somos mais que 300, somos milhares ainda a acreditar na força das águas dos igarapés. Somos fortes ainda; caminhamos fortes, mas isso os jornais não contam. Depois eu volto.


Paz em Nhande Rú ,
Graça Graúna
Ao escrever, dou conta da ancestralidade;
do caminho de volta,
do meu lugar no mundo (Graça Graúna)

5 comentários:

marilia disse...

O importante é que cada um reconheça a força daquilo que é.

Educadora em Direitos Humanos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Educadora em Direitos Humanos disse...

Comentário da poetamiga Doroni, no Overmundo em 03.10.08:

Boa tarde Graça.

Li seu texto e compreendo sua indignação, pois o mesmo acontece aqui.
Quando estava fazendo a Faculdade de pedagogia ( terminei a 3 anos atrás) havia indios também. Então, promoviamos mesa redonda e seminários para chamar a atenção sobre a necessidade e o reconhecimento da lingua nativa nas escolas indigenas. A midia vinha, fazia um estardalhaço e no outro dia era simplesmente um comentário reduzido sobre o evento sem fotos e sem nada. Mesmo que um jornalista se interesse pela causa, sempre há alguém mais que veda qualquer tipo de interesse mais aprofundado sobre as causas indigenas.
E a gente não compreende o porque, afinal, os indios são os senhores da terra. Aqui em Manaus existe índios trabalhando em super mercados, breve perderão a sua cultura. Interessante que nesse encontro de vocês havia gente de peso, e por eles e você, a mídia não poderia ter sido excludente. Foi uma falta de respeito.
bjssss e meu carinho

Doroni Hilgenberg

Educadora em Direitos Humanos disse...

Comentário do poetamigo Hideraldo Montenegro, no Overmundo, em 03.10.08:

Pois é, Grauninha, não podemos esperar muito dos poderes constituídos (e, estou incluindo aqui os formadores de opinião, a midia de uma forma geral). O importante é que você está fazendo um trabalho fundamental de resgate e fixação de uma cultura. Afinal, não estamos produzindo as coisas para esta elite (mas, que não sirva apenas de consolo, claro), contudo, o seu esforço, com certeza, é e será reconhecido independente das resistências. Aliás, qualquer ação que façamos sempre existirá uma reação contrária, no sentido inverso, até na Lei da física isto é verdade. O fato é que o importante é que estamos fazendo este movimento em direção a alguma parte e não importa a resitência (já que sempre haverá).
Então, o que importa? Importa a nossa consciência, o resto...bem, o resto....
Lamentável é e sempre será, pois, enfim, ela (a mídia) é fruto, resultante deste sistema e não é e não pode ser diferente daquilo que a produz (a sua essência), porém, sua reação é óbvia já que ela retrata uma mentalidade elista (não vai aqui nenhuma idéia separatista, conflituosa).
Aliás, se me permite, penso que não temos que reforçar as diferenças, mas, ao contrário, as nossas semelhanças. Por exemplo, não penso homem e mulher, penso o ser humano. Não penso o branco e o negro, mas o ser humano. Não penso o rico e o pobre, mas o ser humano. Encontrar as nossas semelhanças certamente contribuirá para a eliminação das diferenças. Ingenuidade? Não sei, mas como místico só posso pensar que será através da alma que vamos demolir todas as formas de preconceito.
O fato é que você é linda e maravilhosa (uso muitos adjetivos, né? Coisa de viado - sem preconceito!!). Mas, é maravilhosa e sua ação é admirável e um exemplo

cassiane.a disse...

Olá, querida Graúna,
Infelizmente, mais uma vez a mídia, instituição formadora de opinião, cumpre seu vil papel de reforçar o pensamento dominante.
Mais triste ainda é constatarmos que o preconceito está presente também na academia, instituição que apesar de tanto estudar a margem, os excluídos, ainda não reconhece a literatura indígena!!!
Mas os nossos irmãos indígenas vêm mostrando sua força, sua resistência. A presença de vocês 3, que eu tanto admiro, foi fundamental na feira do livro. Vocês mostraram a que vieram, mostraram sua força. E tenho certeza que o público correspondeu.
um beijo, querida, e continue firme na luta.
Cassiane (eu mesma, Ane, sua irmã em Ñanderú!)