quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Visão cabocla: Quixote rural

Das ondas do mar à Nazaré da Mata (PE), vou tecendo o que me fica dos carnavais; das ruas de Recife às ladeiras de Olinda, o que me fica dos canaviais.

O instante, a cultura, o folguedo misturados ao ofício de escrever. Parece mesmo inevitável não falar do ofício de ser criador-criatura e neste patamar, quem conta e canta mesmo é o Mestre o improviso de suas loas (versos inteligentes) para alegrar os brincantes e as pessoas que vêm de muito longe; vem gente de Portugal e Espanha; de tudo que é lugar, até da Austrália para ver tudo de muito perto, como diz o Mestre.

Em Nazaré da Mata (a 65 km de Recife), conhecida como "Terra do maracatu", 90 agremiações coincidentemente se encontraram para homenagear os 90 anos do Maracatu Cambinda Brasileira (nesse grupo fundado em 1919, o homem aparece fantasiado de mulher, isto é, o cambinda). Na seqüência, vale conferir os 17 maracatus de Nazaré da Mata e as datas de fundação: Leão Formoso (1980), Leão Misterioso (1990), Águia Misteriosa (1991), Leão de Ouro (1995), Cambinda Nova (1995), Leão da Selva (1996), Mirim Sonho de Criança (1997), Piaba Dourada (1999), Leão Africano (1999), Leão Cultural (2000), Águia de Ouro (2001), Estrela Brilhante (2001), Leão Brasileirinho (2002), Leão Nazareno (2002), Coração Nazareno (composto só por mulheres, fundado em 2004), Leão Faceiro (2005) e Leão Dourado (2006).

Lá vem o cortejo do maracatu rural ou maracatu de baque solto como é conhecido na região: a dama da boneca de trança, as damas do bouquê (baianas); babau, burra, caçador, catirina, caboclo de pena, Mateus, porta-bandeira, mestre de toada, contra-mestre, rei, rainha, valete, e caboclo(a) de lança em meio a multidão.

Lá vai ele e sua sombra com um cravo nos dentes; lá vem ela e sua dança no meio da tarde chuvosa. A passos largos, lá vem o cortejo no baque solto. Os lanceiros e as lanceiras abrem alas para proteger esse bailado. Nesse ritmo acontece o encontro no meio da praça de reis e rainhas: Eh.... tu-ma-ra-ca...tu-ma-ra-ca... no ofício de ser caboclo na dança, cabocla de trança, caboclo(a) de lança colorida. Caboclo de lança-palavra que a licença poética me permite chamá-lo de Dom Quixote rural.


Graça Graúna, Região da Mata Norte do Estado de Pernambuco, 04.fev.08.

Nota: no site Overmundo, esta crônica recebeu 161 votos


(*) Foto de Claudio Milfont

6 comentários:

Ernani disse...

Muito lindo esse texto minha amiga...

Educadora em Direitos Humanos disse...

No Orkut, o amigo baiano José Walter deixou este recado:
Graça:
Gostei muito da sua crônica. Se eu já tinha vontade de conhecer aí, Pernambuco, imagine agora. Um abraço de José Walter

tutekx disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Angela Ursa disse...

Graça, o maracatu é mesmo uma linda dança. Beijos da Ursa :))

J Alexandre Sartorelli disse...

Por incrível que pareça já vi maracatu em São Paulo e no Rio. Fiquei muito impressionado com o ritmo e movimento.
E gostei do movimento de seus textos :o)

Aproveito para mandar um poema para uma artesã da palavra:

Uma palavra basta
E não é aquela.
Uma palavra gasta
Que não se revela.

É tão difícil encontrá-la
E é tão fácil perdê-la.
Eu a tive de tarde
Antes da lua e estrelas.

E se gostou
alexsartorelli.blogspot.com

bjs

Jorge Elias disse...

Belo texto.
Trago saudações de um capixaba com coração nordestino (filho de São José do Seridó).

Tendo tempo, apareça para comer uma moqueca.

Abraços,

JEN