domingo, 23 de setembro de 2007

Uns cavaleiros


No deserto das cidades
uns cavaleiros sonham
mas sonham só
seduzidos pela mais valia.

De resto,
lugar nenhum no coração
para encantar Dulcinéias.

Onde o herói contra os moinhos?

(Graça Graúna. Canto Mestiço.
Maringá/RJ: Blocos, 1999, p.45)

Tear da Palavra


Certo dia, ao ver seu amigo (o Cavaleiro da triste figura) muito desanimado, quase que desistindo da vida; Sancho disse-lhe para não esquecer que só o sonho que se sonha junto é realidade. Um outro quixotesco e irmão do mundo, Carlos Drummond, também não se cansou de reiterar em sua poesia que não faz sentido e não justifica mesmo sair por aí, se não for de mãos dadas. Dessa leitura, intui que, agindo assim, não haveremos de cair nas armadilhas da falta de solidariedade, do isolamento, do preconceito, da fome, da miséria, da violência generalizada, das injúrias, dos desafetos e de tantos outros problemas que atingem a nós todos(as) a cada instante nesses tempos difíceis. Acreditando na alma e na força da palavra de amigos(as) e leitores(as) acerca dos meus escritos; procurei reunir alguns poemas dos livros Canto Mestizo e Tessituras da Terra e outros inéditos para festejar os 18 anos de Mulheres Emergentes. O lema da editora é “levar ao público a expressão poética contemporânea, em especial a feminina” (conforme as palavras de T. Diniz, na Coleção Milênio 2001).
Sendo assim, com licença poética, apresento este Tear da palavra que sugere o direito de sonhar e tecer a vida; o respeito às diferenças e o direito de cultivar a liberdade de expressão, sempre.

Graça Graúna
Nordeste do Brasil, jan. 2007.

(*) Dia do lançamento: sábado, 13 de outubro de 2007.

Local e hora: Centro de Convenções, as 16h, no stand da UBE União Brasileira de Escritores em Pernambuco.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Sementes de histórias*


Na superfície de uma caixa de madeira, a pintura revela seus mistérios em forma de círculos paralelos que se cruzam e ampliam o horizonte de possíveis caminhos ancestrais.
Coincidentemente, a artesã é uma mulher carinhosamente chamada de Baixinha, tem cabelos pretos estirados e curtos, parece uma índia. Edilene Abreu, fez a caixa e nela imprimiu uma possível aldeia à luz do seu imaginário que é, em parte, sua leitura de mundo, do cerrado.
A ordenação dos círculos, o tracejado cor de terra que entra em harmonia com a brancura e com o tom laranja predominante se misturam a pequenos quadrados dentro de círculos menores, até alcançar o centro do desenho que sugere uma possível aldeia.
O desenho traz oito círculos inteiros e marrons que parecem tocar o infinito no movimento de luz e sombra que se articulam até o centro do grafismo, de tal forma que lembra o dualismo do habitat e do imaginário dos Yanomami.
Com efeito, essa descrição é nada mais que a minha leitura em torno de um presente que recebi, isto é, uma caixa de madeira, compartimentada; feita exclusivamente para guardar meus colares indígenas e porções de sementes do cerrado.
Em homenagem à mandala que ilustra o porta-jóia e à arte de contar histórias (verdadeiras sementes do universo indígena), assim torno a ver nos versos que teci para Canción peregrina, (In: Talento feminino em prosa e verso, São Paulo, Rebra, 2004:65-68) as contas do meu colar e um punhado de histórias de diferentes etnias:

Yo tengo um collar
de muchas historias
y diferentes etnias.
Se no lo reconocen,
paciência.
Por lo derecho de ser igual
nosotros habemos de continuar
gritando la angustia acumulada
hace 500 años.
Yo tengo um collar
de muchas historias
y diferentes etnias.

(*) Graça Graúna, 18.set.2007. Esta crônica é parte do meu livro Lugar e memória, no prelo.

Memórias do cerrado*

Freqüentemente vou ao cerrado (DF), onde a vida me dá o abrigo do abraço de pessoas queridas. Uma coisa assim, do fundo do coração, que a mãe natureza nos proporciona para manter a alegria de um encontro ainda que relâmpago.

Apesar da crise nos aeroportos: dos sustos e das perdas de pessoas que sequer nós conhecemos, conseguimos em um final de semana nos encontrar milagrosamente: o pai, a mãe, o filho, as filhas, o irmão, as irmãs, genros, nora, a tia, netos e netas... e tempo houve até de falar do desenvolvimento de Prateada - uma cadela "vaimaraner" que também traz alegria pra vida da gente.

Tempo de verão. O dia pareceu mais longo, tanto assim que tivemos todos quase a mesma impressão de que daria tempo de fazer tudo ou quase tudo que sonhamos: contemplar os jardins do planalto; comer pamonha, deitar na grama, soltar pipa e observar a vida pelo caleidoscópio na feira de artesanato ou feirinha da torre, em Brasília. Não me lembro de um dia tão longo e pela vez primeira experimentamos driblar o próprio tempo que vez por outra teimava em anunciar o dia seguinte da partida.

Quando veio à noite, as crianças ouviram histórias tecidas de estrelas e catadores de sonhos que se misturaram aos personagens de sonhos shakespearianos... "ora, direis, ouvir estrelas..." Nesse ritmo, meus filhos e eu fomos tecendo as lembranças de quando morávamos no bairro da Várzea, em Recife, onde havia um portão que apelidamos de portão de Alice, a mesma do país das maravilhas. Nessa noite, a lembrança da ferocidade do tempo veio incorporado no coelho a dizer: é tarde, tenho pressa; muita pressa.

Apesar disso, o frio noturno do cerrado convidou a mais uma garrafa de vinho e foi exatamente o que fizemos, como fazíamos na Várzea – embora naquele tempo nossa economia nem desse para um gole de moscatel. Apesar dos tempos nús, meus filhos cresceram em meio a pilhas e pilhas de livros. Com essa lembrança, buscamos a livraria Rayuela para brindar o nosso encontro relâmpago e nossa memória de leitores antenados na América Latina: de Garcia Marques a Cortazar; de “Cem anos de solidão” ao “Jogo da amarelinha" ou Rayuela. À luz desse encontro, dou conta de um hai-kai que hoje teci a respeito dos sonhos:

não, os sonhos não se foram
eles habitam na memória
das ovelhas negras

(*)Graça Graúna