terça-feira, 18 de setembro de 2007

Memórias do cerrado*

Freqüentemente vou ao cerrado (DF), onde a vida me dá o abrigo do abraço de pessoas queridas. Uma coisa assim, do fundo do coração, que a mãe natureza nos proporciona para manter a alegria de um encontro ainda que relâmpago.

Apesar da crise nos aeroportos: dos sustos e das perdas de pessoas que sequer nós conhecemos, conseguimos em um final de semana nos encontrar milagrosamente: o pai, a mãe, o filho, as filhas, o irmão, as irmãs, genros, nora, a tia, netos e netas... e tempo houve até de falar do desenvolvimento de Prateada - uma cadela "vaimaraner" que também traz alegria pra vida da gente.

Tempo de verão. O dia pareceu mais longo, tanto assim que tivemos todos quase a mesma impressão de que daria tempo de fazer tudo ou quase tudo que sonhamos: contemplar os jardins do planalto; comer pamonha, deitar na grama, soltar pipa e observar a vida pelo caleidoscópio na feira de artesanato ou feirinha da torre, em Brasília. Não me lembro de um dia tão longo e pela vez primeira experimentamos driblar o próprio tempo que vez por outra teimava em anunciar o dia seguinte da partida.

Quando veio à noite, as crianças ouviram histórias tecidas de estrelas e catadores de sonhos que se misturaram aos personagens de sonhos shakespearianos... "ora, direis, ouvir estrelas..." Nesse ritmo, meus filhos e eu fomos tecendo as lembranças de quando morávamos no bairro da Várzea, em Recife, onde havia um portão que apelidamos de portão de Alice, a mesma do país das maravilhas. Nessa noite, a lembrança da ferocidade do tempo veio incorporado no coelho a dizer: é tarde, tenho pressa; muita pressa.

Apesar disso, o frio noturno do cerrado convidou a mais uma garrafa de vinho e foi exatamente o que fizemos, como fazíamos na Várzea – embora naquele tempo nossa economia nem desse para um gole de moscatel. Apesar dos tempos nús, meus filhos cresceram em meio a pilhas e pilhas de livros. Com essa lembrança, buscamos a livraria Rayuela para brindar o nosso encontro relâmpago e nossa memória de leitores antenados na América Latina: de Garcia Marques a Cortazar; de “Cem anos de solidão” ao “Jogo da amarelinha" ou Rayuela. À luz desse encontro, dou conta de um hai-kai que hoje teci a respeito dos sonhos:

não, os sonhos não se foram
eles habitam na memória
das ovelhas negras

(*)Graça Graúna

2 comentários:

Heitor Kaiová disse...

Nde karudju, riké'i Graúna,
Hoje, choramos a morte por assassinato de mais um parente, Avelino Nunes Macedo,
o índio xacriabá assassinado covardemente na Cidade de Manga, no dia 16 de setembro, no Estado de Minas Gerais.
Aproveito para te ensinar a rezar em Guarani.
Quando o Sol ainda estiver nascendo se ponha frente a Ele e diga:
Porã Eté, Aguyjeveté. Ore Rú Nha Mandú; (então vire-se de costas e diga) Ore Rú Tupã. (vire-se novamente e diga) Ore Rú Eté, Nhande Rú Vussú, Ha eveté, ha eveté.
Traduzindo:
Maravilhoso e Verdaeiro,
Reconhecida gratidão,
Nosso Pai Sol,
Nosso Pai Tupã (energia e água)
Nosso Grande Pai Verdadeiro,
Nosso Pai Grandioso (a Trindade Guarani),
Muito obrigado(a), Muito obrigado(a).
Ao grande Espírito Nhande Rú não se pede nada em especial. Só ajuda e proteção. A Nha Mandú e Tupã pode pedir outras coisas. Mas, quando conseguir, agradeça a Nhade Rú Eté primeiro.
Um abraço amigo a irmã de sempre.
Heitor Kaiová

iroka disse...

oi vovó,
adorei essa post que você fez!!!!!
e foto também! É em um restaurante aqui em brasília! se não me engano o nome é "raiuela" não é? é tipo um restaurante livraria né?
Gosto muito de você e da maneira que você escreve, e isso me enspira cada vez mais a escrever poemas e as histórias, é bom ter pessoas na nossa família que inspiram a gente,e levantam os nossos animos.Te amo muito, muito mesmo, do fundo do meu coração!!!!
beijos e abraços de sua neta **Íris** ",
##a sua maneira de falar é tão boa, que me acalanta!##