sábado, 22 de dezembro de 2007

D. Quixote do Cerrado

Em janeiro de 2003 ganhei do meu filho Fabiano e das minhas filhas Ana e Agnes a luxuosa coleção (3 vol.) de D. Quixote de la Mancha, com ilustrações de Gustavo Doré.
Hoje, às vésperas de 2008, quero registrar com o vídeo D. QUIXOTE DO CERRADO os meus votos de um Natal e um 2008 de Justiça, Paz e Amor para todos(as) e que continuemos quixotescos(as), sonhadores(as); fazendo o pão nascer da poesia,
posto que a vida nasce e recomeça das palavras.
Sempre, para o que der e vier, Graça Graúna

video

domingo, 2 de dezembro de 2007

Yes,
natal
que é natal
tem que ter estrela
bem no topo da árvore,
de preferência, banhada
de purpurina. Enfeites, efeitos
grifes, beijinhos, velas, guardanapos,
CDs, framboesas, cartões de crédito, postais
e poemas que não falem do absurdo presépio
sob o viaduto
em construção

Graça Graúna. In: Tessituras da Terra -2001, BH-MG

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Maniçoba: louvando Jesus Menino

Dezembro está chegando e novembro guarda seus finados e dá passagem à luz que anuncia o espírito natalino.
Lá em Maniçoba, no Agreste pernanmbucano, as pessoas desde sempre mostram o zelo que têm pela cultura do lugar; a "Casa das 12 janelas" e o carro de boi na frente dessa casa e um velho pote de água no canto da cozinha são uma prova disso.
As casas são agarradinas nas outras; nos quintais encontramos aquela areia fininha...fininha e meio escura, que as galinhas gostam de ciscar e pôr seus ovos de capoeira.
Poucos lugares no Brasil possem a riqueza que encontramos em Maniçoba: o reizado, o pastoril, as cantorias, a cavalgada da amizade e os leilões de bode pra animar as quermesses da pequena Igreja dão conta de que os capoeirenses (de Capoeiras-PE), os maniçobenses são atuantes e festejam também com muita alegria o Dia de São José, e acreditem! O bom Padre de lá, ainda usa aquele tipo de batina que a gente só vê impregnada nas imagens do "Padim Ciço". Eita, Maniçoba! Eita Lugar arretado!
Guardo boa lembrança do convite de Agostinho Jessé, um dos agitadores culturais do lugar. O desafio foi fazer um estandarte para o Pastoril, em homenagem ao Jesus Menino. Dito e feito: numa tarde de sábado e varando o domingo em Recife, minha mãe Noemia, minha irmã Brasília Morena e eu tecemos o estandarte azul e encanardo para mostrar também o nosso amor às raizes nordestinas.
Assim, acanhadamente, deixo minha saudação à Karina Calado que é também uma agitadora cultural. Nesse ritmo, vai um pouquinho dos meus versos:


Karina poetamiga
quisera ter a grandeza
tecida nos versos seus.
Assim mesmo, ofereço
ao povo de Maniçoba
com afeto os versos meus.

Não esquecerei o dia
em que um amigo me deu
a grande oportunidade
de conhecer Maniçoba
e fazer um estandarte
pra louvar o Menino Deus

(Graça Graúna, Nordeste do Brasil, 19.nov.2007)

Crédito: a foto é de Agostinho Jessé e segurando o estandarte; da esquerda para direita, Karina e sua irmã Carol. Para saber mais, visite o blog de Maniçoba.

terça-feira, 13 de novembro de 2007


Ao escrever,
dou conta da ancestralidade;
do caminho de volta,
do meu lugar no mundo.


(Graça Graúna, In: Cadernos Negros, Ed. Quilomboje)

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Margens

 Imagem: Zipnet
I

A poesia tem gosto de sal
e me faz chorar
pelas ruas de Recife
de Espinhara e Ascenso
de Alberto Cunha Melo
de Mauro Mota e Bandeira

II
...está inscrita a inquietude.
E tão logo amanhece
me embriago da poesia que exala das pontes
do cheiro de terra que fura o asfalto
das ruas do Recife
onde passam maracutus
e cresce a saudade do poeta França.

Rapsódia

ao poeta Walter Ramos


o tempo
a lembrança
a dimensão da poesia
e uma súbita emoção
no olhar em volta da nação

Toques*

*ao poeta Halves

o
encanto
de saber e amar
está na liberdade de cada avuante
poder expressar o avesso do canto

domingo, 28 de outubro de 2007

Sarau


Relançamento do livro TEAR DA PALAVRA, poemas de Graça Graúna. Dia do sarau: 07/11/07, às 19:00h, no salão de recepções do Mosteiro de São Bento, em Garanhuns; próximo a Praça Guadalajara. Sarau organizado pelo 8º período de Letras/UPE. Contato: Ir. Basílio, Ir. Marcos e Ir. Tomás Fone: (87) 3761-1592.
Nesse livro, um dos poemas é dedicado à Florbela Espanca:

Escritura ferida

Atiram mil pedras
na charneca em flor.

Ossos do ofício:
no mais fundo do poço
retirar o poema
encharcado de mágoas

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Da Serra dos Ventos para as nossas estantes

É muito gratificante para uma educadora reconhecer as marcas de sua teimosia, de suas exigências, dos ideais libertários, do respeito às diferenças; especialmente as marcas do direito de sonhar que passam a fazer parte da vida de alunos(as) e ou de ex-alunos(as), sobretudo quando enveredam pelo difícil, porém gratificante, caminho das Letras.

Porque é difícil o caminho, nunca é demais saudar os nomes que habitam as nossas estantes e que são parte de nossa alma: João Cabral, Drummond, Cecília Meireles, Quintana, Bandeira, Leminsk, França de Recife, Roland Barthes, Cervantes, Camões, Lorca, Umberto Eco, Alberto Manguel, Cloves Marques e uma infinidade de argilas pensantes que influenciam no jeito de ser e de viver.

Com licença, saúdo um nome que vem lá da Serra dos Ventos: um lugar encravado em Belo Jardim, Pernambuco, Nordeste do Brasil. Trata-se de Robervânio Luciano: um leitor atento, um guardador de sonhos que, em março de 2006, compartilhou de minhas reflexões sobre “hai kais” no Curso de Pós-Graduação em Língua Portuguesa e suas Literaturas, junto à Universidade de Pernambuco (UPE) Campus de Garanhuns e à Faculdade de Belo Jardim (FABEJA).

Numa conversa informal, nos intervalos das aulas, sugeri algumas leituras; a começar pelo mestre Bashô. Na ocasião, eu estava relendo (no original) 365 haicais de sol e chuva, do haijin Cloves Marques. Não conversamos sobre a vida do poeta, mas como o poeta fala da vida; de como o leitor também pode ser um grande observador (e por que não dizer, guardador do tempo?) a tal ponto, que 365 dias não bastem para falar de poesia, história, desigualdades sociais, morte, vida, direitos humanos, cidadania, identidade...Eis alguns exemplos da poética de Cloves Marques:

Bem a luz do dia,
a fome assalta o homem.
A justiça espia.

Uma cuia d’água
à sombra do umbuzeiro,
o sol tudo espreita

Olhares-lamentos.
Ah! A boca da caatinga
come os pensamentos

Sim, pescar siri
no mangue, com Deus por todos,
cada um por si.

Um canto pungente.
O caçador viu o ninho,
visão inclemente.

Ribaçã à venda.
Na feira do tira-gosto
mera encomenda.

O riacho vai
com recados para o rio,
ao mar, um haicai.


Então, foi desse modo que surgiu um quase-roteiro que ora se transforma em importante contribuição de Robervânio à pesquisa literária; um estudo da literatura nordestina metamorfoseada em “hai-kais”. Por isso, cabe enfatizar que é, para mim, um prazer renovado o ato de refletir o ser e a poesia (de sol e chuva) em Cloves Marques.

Graça Graúna
Nordeste do Brasil

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Cantares

Imagem: Interpoética
para Alberto Cunha Melo (in memorian)


...todos emigram.
Nessa direção,
um pássaro de asas largas
ganha a imensidão do tempo.

Graça Graúna

domingo, 14 de outubro de 2007

Canción peregrina*

Foto: Graça Graúna
I
Yo canto el dolor
desde el exilio
tejendo un collar
de muchas historias
y diferentes etnias

II
Em cada parto
y canción de partida,
a la Madre-Tierra pido refugio
al Hermano-Sol más energia
y a la Luna-Hermana
pido permiso (poético)
a fin de calentar tambores
y tecer un collar
de muchas historias
y diferentes etnias.

III
Las piedras de mi collar
son historia y memória
del flujo del espírito
de montañas y riachos
de lagos y cordilleras
de hermanos y hermanas
en los desiertos de la ciudad
o en el seno de las florestas.

IV
Son las piedras de mi collar
y los colores de mis guias:
amarillo
rojo
branco
y negro
de Norte a Sur
de Este a Oeste
de Ameríndia o Latinoamérica
povos excluidos.

V
Yo tengo un collar
de muchas historias
y diferentes etnias.
Se no lo reconocem, paciência.
Nosotros habemos de continuar
gritando
la angustia acumulada
hace más de 500 años.

VI
Y se nos largaren al viento?
Yo no temeré,
nosotros no temeremos.
Si! Antes del exílio
nuestro Hermano-Viento
conduce nuestras alas
al sagrado circulo
donde el amalgama del saber
de viejos y niños
hace eco en los suenos
de los excluidos.

VII
Yo tengo un collar
de muchas historias
y diferentes etnias.


*um poema do livro Tear da Palavra, de Graça Graúna.
Nota: no site Overmundo, este poema recebeu 152 votos

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Pelo Dia da Criança*


Quem disse que saudade não se mede?
Minha saudade é assim:
maior que as tranças de Rapunzel,
maior que um monte de areia do mar,
bem maior que o mundo


(*)a menina da foto sou eu, aos 12 anos, aluna do Colégio das Damas, em Recife.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Horas-cheias


nossos passos ecoam
no frêmito de asas
a poesia vem e vai
se alastrando
como quer a natureza:
gruta
seios
o sol-ponteiro
o arrepio de corpos
em meio a passarada

(Graça Graúna)
Nota: no site Overmundo, este poema recebeu 151 votos.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Poética da Autonomia*


I
Minha voz tem outra semântica,
outra música. Neste ritmo,
falo da resistência
da indignação
da justa ira dos traídos
e dos enganados

II
Apesar de tudo,
jamais desistir de apostar
na esperança
na palavra do outro
na seriedade
na amorosidade
na luta em que se aprende
o valor e a importância da raiva.
Jamais desistir de apostar demasiado
na liberdade

III
Apesar de tudo,
cabe o direito de sonhar
de estar no mundo
a favor da esperança
que nos anima

(Graça Graúna)

* Poema inspirado no livro Pedagogia da autonomia, e apresentado no encerramento do VI Colóquio Internacional Paulo Freire, no Centro de Convenções da UFPE, em 2 de setembro de 2007.

Legado


A grande lua de fogo
revelou a sua face agréstia
e, vagarosamente, foi indo...
gravitando na incandescência

A grande lua de fogo
trouxe um véu de estrelas;
veio com o vento da noite
e não espantou a neblina.

Na agrestidade do ser
cavamos os sonhos
contra a desesperança
que circunda as nossas vidas


Nordeste do Brasil, set. 2006
Graça Graúna

Nota: no site Overmundo, este poema recebeu 200 votos.

domingo, 23 de setembro de 2007

Uns cavaleiros


No deserto das cidades
uns cavaleiros sonham
mas sonham só
seduzidos pela mais valia.

De resto,
lugar nenhum no coração
para encantar Dulcinéias.

Onde o herói contra os moinhos?

(Graça Graúna. Canto Mestiço.
Maringá/RJ: Blocos, 1999, p.45)

Tear da Palavra


Certo dia, ao ver seu amigo (o Cavaleiro da triste figura) muito desanimado, quase que desistindo da vida; Sancho disse-lhe para não esquecer que só o sonho que se sonha junto é realidade. Um outro quixotesco e irmão do mundo, Carlos Drummond, também não se cansou de reiterar em sua poesia que não faz sentido e não justifica mesmo sair por aí, se não for de mãos dadas. Dessa leitura, intui que, agindo assim, não haveremos de cair nas armadilhas da falta de solidariedade, do isolamento, do preconceito, da fome, da miséria, da violência generalizada, das injúrias, dos desafetos e de tantos outros problemas que atingem a nós todos(as) a cada instante nesses tempos difíceis. Acreditando na alma e na força da palavra de amigos(as) e leitores(as) acerca dos meus escritos; procurei reunir alguns poemas dos livros Canto Mestizo e Tessituras da Terra e outros inéditos para festejar os 18 anos de Mulheres Emergentes. O lema da editora é “levar ao público a expressão poética contemporânea, em especial a feminina” (conforme as palavras de T. Diniz, na Coleção Milênio 2001).
Sendo assim, com licença poética, apresento este Tear da palavra que sugere o direito de sonhar e tecer a vida; o respeito às diferenças e o direito de cultivar a liberdade de expressão, sempre.

Graça Graúna
Nordeste do Brasil, jan. 2007.

(*) Dia do lançamento: sábado, 13 de outubro de 2007.

Local e hora: Centro de Convenções, as 16h, no stand da UBE União Brasileira de Escritores em Pernambuco.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Sementes de histórias*


Na superfície de uma caixa de madeira, a pintura revela seus mistérios em forma de círculos paralelos que se cruzam e ampliam o horizonte de possíveis caminhos ancestrais.
Coincidentemente, a artesã é uma mulher carinhosamente chamada de Baixinha, tem cabelos pretos estirados e curtos, parece uma índia. Edilene Abreu, fez a caixa e nela imprimiu uma possível aldeia à luz do seu imaginário que é, em parte, sua leitura de mundo, do cerrado.
A ordenação dos círculos, o tracejado cor de terra que entra em harmonia com a brancura e com o tom laranja predominante se misturam a pequenos quadrados dentro de círculos menores, até alcançar o centro do desenho que sugere uma possível aldeia.
O desenho traz oito círculos inteiros e marrons que parecem tocar o infinito no movimento de luz e sombra que se articulam até o centro do grafismo, de tal forma que lembra o dualismo do habitat e do imaginário dos Yanomami.
Com efeito, essa descrição é nada mais que a minha leitura em torno de um presente que recebi, isto é, uma caixa de madeira, compartimentada; feita exclusivamente para guardar meus colares indígenas e porções de sementes do cerrado.
Em homenagem à mandala que ilustra o porta-jóia e à arte de contar histórias (verdadeiras sementes do universo indígena), assim torno a ver nos versos que teci para Canción peregrina, (In: Talento feminino em prosa e verso, São Paulo, Rebra, 2004:65-68) as contas do meu colar e um punhado de histórias de diferentes etnias:

Yo tengo um collar
de muchas historias
y diferentes etnias.
Se no lo reconocen,
paciência.
Por lo derecho de ser igual
nosotros habemos de continuar
gritando la angustia acumulada
hace 500 años.
Yo tengo um collar
de muchas historias
y diferentes etnias.

(*) Graça Graúna, 18.set.2007. Esta crônica é parte do meu livro Lugar e memória, no prelo.

Memórias do cerrado*

Freqüentemente vou ao cerrado (DF), onde a vida me dá o abrigo do abraço de pessoas queridas. Uma coisa assim, do fundo do coração, que a mãe natureza nos proporciona para manter a alegria de um encontro ainda que relâmpago.

Apesar da crise nos aeroportos: dos sustos e das perdas de pessoas que sequer nós conhecemos, conseguimos em um final de semana nos encontrar milagrosamente: o pai, a mãe, o filho, as filhas, o irmão, as irmãs, genros, nora, a tia, netos e netas... e tempo houve até de falar do desenvolvimento de Prateada - uma cadela "vaimaraner" que também traz alegria pra vida da gente.

Tempo de verão. O dia pareceu mais longo, tanto assim que tivemos todos quase a mesma impressão de que daria tempo de fazer tudo ou quase tudo que sonhamos: contemplar os jardins do planalto; comer pamonha, deitar na grama, soltar pipa e observar a vida pelo caleidoscópio na feira de artesanato ou feirinha da torre, em Brasília. Não me lembro de um dia tão longo e pela vez primeira experimentamos driblar o próprio tempo que vez por outra teimava em anunciar o dia seguinte da partida.

Quando veio à noite, as crianças ouviram histórias tecidas de estrelas e catadores de sonhos que se misturaram aos personagens de sonhos shakespearianos... "ora, direis, ouvir estrelas..." Nesse ritmo, meus filhos e eu fomos tecendo as lembranças de quando morávamos no bairro da Várzea, em Recife, onde havia um portão que apelidamos de portão de Alice, a mesma do país das maravilhas. Nessa noite, a lembrança da ferocidade do tempo veio incorporado no coelho a dizer: é tarde, tenho pressa; muita pressa.

Apesar disso, o frio noturno do cerrado convidou a mais uma garrafa de vinho e foi exatamente o que fizemos, como fazíamos na Várzea – embora naquele tempo nossa economia nem desse para um gole de moscatel. Apesar dos tempos nús, meus filhos cresceram em meio a pilhas e pilhas de livros. Com essa lembrança, buscamos a livraria Rayuela para brindar o nosso encontro relâmpago e nossa memória de leitores antenados na América Latina: de Garcia Marques a Cortazar; de “Cem anos de solidão” ao “Jogo da amarelinha" ou Rayuela. À luz desse encontro, dou conta de um hai-kai que hoje teci a respeito dos sonhos:

não, os sonhos não se foram
eles habitam na memória
das ovelhas negras

(*)Graça Graúna